O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) mantém em seu acervo uma coleção de processos que ajudam a contar parte da história do futebol brasileiro. Entre os documentos preservados estão ações judiciais relacionadas à Copa do Mundo, à Taça Jules Rimet, a disputas envolvendo direitos de imagem de ex-jogadores e ao sequestro do pai do ex-atacante Romário.
Segundo a Divisão de Gestão de Documentos (Diged), esses registros revelam não apenas episódios marcantes do esporte nacional, mas também aspectos sociais, jurídicos e culturais que atravessam diferentes períodos da história do país.
Um dos casos mais emblemáticos é o furto da Taça Jules Rimet, troféu conquistado em definitivo pelo Brasil após o tricampeonato mundial em 1970. A taça foi roubada da antiga sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), localizada na Rua da Alfândega, no centro do Rio de Janeiro, em dezembro de 1983.
De acordo com o diretor da Diged, Gilberto de Souza Cardoso, o processo permaneceu por muitos anos sem identificação precisa dentro do arquivo, situação considerada uma curiosidade diante da própria trajetória do troféu.
Os autos reúnem toda a investigação policial, o andamento da ação penal e a condenação dos envolvidos no crime. Para o diretor, o material também evidencia o valor simbólico que a Copa do Mundo representa para os brasileiros.
Outro destaque do acervo envolve o álbum de figurinhas “Heróis do Tri”, lançado em 1988. A publicação utilizou imagens de campeões mundiais sem autorização, motivando ações judiciais movidas por ex-jogadores como Jairzinho, Carlos Alberto Torres, Altair, Amarildo, José Ferreira Franco, Moacir e Joel contra a CBF e a Editora Abril.
As ações contribuíram para fortalecer a proteção ao direito de imagem dos atletas e serviram de referência para o desenvolvimento da legislação esportiva brasileira, posteriormente consolidada pela Lei Pelé.
Entre os processos preservados também está a ação por danos morais movida por Zico contra Romário, em 1999. O ex-camisa 10 da seleção brasileira questionou declarações e caricaturas consideradas ofensivas divulgadas pelo então atacante em um estabelecimento comercial. A Justiça reconheceu o direito de Zico, dando origem a novos desdobramentos judiciais.
Outro documento de grande repercussão registra o sequestro de Edevair de Souza Faria, pai de Romário, ocorrido em maio de 1994, poucos dias antes da Copa do Mundo dos Estados Unidos.
Na ocasião, criminosos abordaram Edevair quando ele deixava seu bar, na Vila da Penha, zona norte do Rio de Janeiro, e exigiram um resgate milionário. O episódio mobilizou forças policiais, ganhou destaque na imprensa nacional e levou Romário a afirmar que abriria mão de disputar o Mundial caso o pai não fosse libertado.
Após seis dias de investigações, a vítima foi localizada em um cativeiro em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A operação policial resultou no resgate de Edevair sem pagamento de resgate e na prisão dos responsáveis pela vigilância do local.
Com o desfecho do caso, Romário integrou a delegação brasileira que conquistou o tetracampeonato mundial nos Estados Unidos, tornando-se um dos principais nomes da campanha histórica.
Para os responsáveis pela preservação documental do TJRJ, esses processos demonstram como os arquivos judiciais ajudam a compreender não apenas fatos marcantes do futebol, mas também a evolução da sociedade, da legislação e da memória esportiva brasileira.
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