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Quatro em cada dez mulheres já recusaram emprego por dificuldades de deslocamento, aponta pesquisa

Insegurança, custo, transporte público precário e distância estão entre os principais obstáculos enfrentados pelas brasileiras.

redação Por redação
23/09/2026 - 18:00
em Brasil
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Pesquisa mostra que 39% das mulheres brasileiras já recusaram emprego por dificuldades de deslocamento. Insegurança e custo estão entre os principais obstáculos.

Imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Quatro em cada dez mulheres brasileiras, o equivalente a 39%, já deixaram de aceitar uma vaga de emprego ou outra oportunidade profissional por causa de dificuldades para se deslocar. Os principais obstáculos são a falta de segurança, o custo do transporte, o tempo gasto nos trajetos e a distância. Os dados fazem parte da pesquisa O Direito de Ir, Vir e Viver, realizada pela Indique, consultoria especializada em diversidade e inclusão racial, em parceria com a Think Eva e a 99.

As dificuldades de mobilidade também afetam diretamente a rotina profissional. Segundo o levantamento, 54% das entrevistadas já deixaram de participar de um compromisso relacionado ao trabalho ou recusaram um convite profissional por problemas de deslocamento. Além disso, 21% afirmaram ter desistido de algum curso de capacitação, incluindo uma graduação universitária.

O impacto vai além do emprego e dos estudos. O levantamento mostra que 80% das mulheres entrevistadas já deixaram de participar de encontros, eventos ou outras atividades sociais por dificuldades relacionadas à mobilidade. Entre elas, 33% abriram mão de atividades físicas ou de lazer, enquanto 32% deixaram de visitar familiares ou amigos. Quando o assunto é sair à noite, o percentual chega a 69%.

A pesquisa ouviu 564 mulheres de diferentes faixas etárias, classes sociais e regiões brasileiras. Para 32% delas, o medo de sofrer violência ou a sensação de insegurança é o principal fator que dificulta os deslocamentos.

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Na sequência aparecem a falta de dinheiro, apontada por 22%, a precariedade do transporte público, citada por 15%, e a distância entre os locais de origem e destino, mencionada por 14% das participantes.

O receio de sofrer algum tipo de violência também interfere diretamente na maneira como as mulheres circulam pelas cidades. De acordo com o estudo, 87% evitam determinados bairros ou regiões por considerá-los inseguros. Outros 73% modificam ou planejam seus horários para reduzir riscos.

Além disso, 63% das entrevistadas já evitaram utilizar algum meio de transporte por questão de segurança, enquanto 60% afirmaram ter escolhido um caminho diferente para chegar ao destino.

Uma das participantes relatou que nem mesmo a aprovação em uma graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) pôde ser aproveitada. Depois de sofrer assaltos em diferentes ocasiões, ela deixou de utilizar ônibus e concluiu que não conseguiria chegar a tempo ao campus.

O assédio sexual aparece como outro fator que limita a liberdade de circulação das mulheres. O levantamento aponta que 89% das entrevistadas já passaram por alguma situação de assédio em pelo menos um meio de transporte ou durante seus deslocamentos.

Os ônibus aparecem com maior frequência, citados por 68,8% das participantes. Em seguida estão os deslocamentos a pé, com 60,8%, e metrôs ou trens, mencionados por 50,2%.

Bicicletas e motos solicitadas por aplicativos registraram percentuais menores, mas também foram apontadas como meios nos quais as mulheres já enfrentaram situações de assédio. Os índices foram de 6,6% e 4,1%, respectivamente.

Diante das dificuldades encontradas no transporte público, os carros solicitados por aplicativos se tornaram uma alternativa frequente. O levantamento mostra que 80% das entrevistadas utilizam esse tipo de serviço.

O problema é o impacto financeiro. Entre mulheres que vivem em periferias ou regiões com infraestrutura e transporte mais deficientes, 67% consideram que o custo desse tipo de deslocamento pesa no orçamento.

A pesquisa mostra ainda que 68% das participantes não possuem veículo próprio. Mais da metade, 52%, passa mais de uma hora por dia em deslocamentos.

Para 45% das entrevistadas, as condições de mobilidade nos locais onde moram são piores do que as encontradas nas regiões centrais das cidades. Além disso, 33% classificam o transporte público disponível em seus bairros como ruim ou péssimo.

O estudo também identifica diferenças importantes de acordo com a renda. Entre as mulheres de baixa renda, 80,3% utilizam ônibus regularmente. Entre aquelas de maior renda, o percentual cai para 52,1%.

A situação se inverte quando o meio de transporte analisado é o carro próprio. O veículo é utilizado regularmente por 40,6% das mulheres de maior renda, mas por apenas 8,3% das participantes de baixa renda.

Os números indicam que as condições financeiras estão diretamente relacionadas às alternativas disponíveis para os deslocamentos e, consequentemente, às possibilidades de acesso ao trabalho, educação, lazer e outros serviços.

As responsabilidades relacionadas ao cuidado de filhos, idosos e pessoas com deficiência também interferem na mobilidade feminina. Segundo a pesquisa, 54% das mulheres entrevistadas afirmam realizar sozinhas esse tipo de atividade, enquanto 38% dizem dividir as responsabilidades com outras pessoas.

Por isso, os deslocamentos de muitas mulheres não seguem apenas o percurso entre casa e trabalho. A rotina pode incluir paradas em escolas, consultas médicas, farmácias, supermercados e outros locais necessários para o cuidado de familiares.

Entre as entrevistadas, 43% afirmam planejar sozinhas os trajetos relacionados a essas responsabilidades. Para 44%, as tarefas de cuidado também influenciam diretamente a escolha do meio de transporte.

Quando estão acompanhadas de pessoas que dependem delas, 53% recorrem a carros por aplicativo para realizar os deslocamentos.

A etapa quantitativa do levantamento foi realizada entre 8 de junho e 9 de julho de 2026. Foram entrevistadas 564 mulheres entre 18 e 60 anos.

A pesquisa contemplou as capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Manaus e Belém, além de outras 73 cidades brasileiras.

O estudo também contou com a participação de especialistas em temas relacionados ao planejamento urbano, direito à cidade, mobilidade feminina, desigualdade territorial, periferias e mobilidade ativa. A proposta foi compreender como as condições de deslocamento afetam diferentes aspectos da vida das mulheres no Brasil.

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Tags: #Desigualdade#DireitoDeIrEVir#MercadoDeTrabalho#MobilidadeFeminina#MobilidadeUrbana#MulheresNoBrasil#TransportePublicoBrasilEmpregoMulheresPesquisaSegurança
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