Pesquisadores redescobriram em Minas Gerais espécies de plantas raras que não eram encontradas na natureza havia décadas. Os registros foram feitos no Quadrilátero Ferrífero, região conhecida pela riqueza de espécies endêmicas e pela presença de campos rupestres associados a áreas de solo ferruginoso.
As buscas fazem parte do Projeto de Conservação de Espécies Raras e Endêmicas do Quadrilátero Ferrífero, iniciativa que reúne universidades, instituições de pesquisa e a Vale por meio da Rede Propagar. O trabalho é realizado em áreas protegidas e tem como objetivo localizar espécies pouco conhecidas, ampliar as informações científicas sobre elas e desenvolver estratégias para sua conservação.
De acordo com Laís Zeferino, doutora em biologia vegetal e pesquisadora associada à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), algumas espécies que estavam entre os alvos das pesquisas não eram observadas havia mais de um século e chegaram a ser consideradas potencialmente extintas.
A realização de novas expedições permitiu localizar exemplares dessas plantas novamente em seu ambiente natural.
Entre as espécies encontradas estão Paepalanthus magalhaesii e Coracoralina amoena, conhecidas popularmente como sempre-vivas ou chuveirinhos. Elas fazem parte da vegetação característica das serras mineiras e possuem flores que conseguem manter parte de sua aparência mesmo depois de secas.
As duas espécies são endêmicas do Quadrilátero Ferrífero, o que significa que sua ocorrência natural está restrita a essa região.
A Paepalanthus magalhaesii apresenta pequeno porte e cresce próxima ao solo, entre formações rochosas. Pesquisadores localizaram exemplares em áreas protegidas de Capanema, Capivari I, Capivari II e Cata Branca, situadas entre os municípios de Itabirito, Rio Acima e Ouro Preto.
Já a Coracoralina amoena está associada a ambientes rochosos com condições consideradas extremas para a vegetação. A espécie ocorre em locais com pouca espessura de solo, forte exposição ao sol e disponibilidade limitada de água durante parte do ano.
A planta chegou a ser considerada possivelmente desaparecida da natureza em registros científicos anteriores.
A capacidade dessas espécies de sobreviver em ambientes com condições adversas é um dos aspectos que chamam a atenção dos pesquisadores.
Segundo especialistas envolvidos no projeto, plantas adaptadas a períodos de estresse hídrico e temperaturas elevadas podem contribuir para o conhecimento sobre a adaptação da vegetação aos ambientes extremos.
Além da importância ecológica, os pesquisadores avaliam que o conhecimento sobre essas espécies pode futuramente contribuir para estudos em áreas como genética, biotecnologia e farmacologia.
A redescoberta também reforça a necessidade de ampliar as pesquisas sobre a biodiversidade brasileira. Para Laís Zeferino, o trabalho demonstra que ainda existem espécies pouco conhecidas e áreas que precisam ser estudadas de forma mais aprofundada.
Depois das expedições de campo, o material coletado foi encaminhado para laboratórios ligados à Rede Propagar. As amostras serão utilizadas em estudos genéticos e em pesquisas voltadas à reprodução das plantas.
A intenção é desenvolver técnicas de propagação que permitam produzir novas mudas. Em uma etapa posterior, os pesquisadores poderão avaliar a possibilidade de reintroduzir exemplares em áreas naturais adequadas.
Segundo Ana Cristina Amoroso, engenheira ambiental e especialista em campo rupestre da Vale, o projeto pretende preencher lacunas de conhecimento sobre espécies que ainda possuem poucas informações científicas disponíveis.
Além dos estudos genéticos e da produção de mudas, parte dos exemplares será utilizada para identificação e ficará depositada em uma coleção de referência. O material poderá servir de base para novas pesquisas.
A reprodução das espécies em laboratório pode representar uma ferramenta adicional para a conservação. Caso os estudos indiquem condições adequadas para a reintrodução, novas plantas poderão ser levadas a ambientes naturais onde sua ocorrência tenha sido reduzida.
A estratégia também pode contribuir para ampliar a distribuição de espécies que atualmente apresentam populações pequenas e restritas.
O desafio, segundo os pesquisadores, não está apenas em multiplicar as plantas. Também é necessário preservar e recuperar os ambientes onde elas vivem, garantindo condições para que consigam se desenvolver e completar seus ciclos naturais.
Pressões ambientais preocupam pesquisadores
O Quadrilátero Ferrífero concentra uma parcela significativa de espécies endêmicas, ou seja, que não são encontradas naturalmente em outras regiões. Por isso, a preservação dos habitats locais é considerada fundamental para a manutenção da biodiversidade.
As áreas naturais enfrentam pressões relacionadas às atividades humanas e às mudanças climáticas. Alterações no ambiente podem afetar espécies que possuem distribuição geográfica muito limitada e dependem de condições específicas para sobreviver.
Para os pesquisadores envolvidos no projeto, conhecer essas plantas é uma das etapas necessárias para desenvolver estratégias de conservação mais eficientes.
As novas descobertas também mostram que levantamentos de campo continuam sendo importantes para a ciência. Mesmo espécies consideradas desaparecidas podem permanecer em áreas pouco exploradas, reforçando a necessidade de pesquisas contínuas sobre a biodiversidade brasileira.
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