Um importante capítulo da história da escravidão no Brasil começa a ganhar novos contornos a partir de pesquisas que identificaram registros financeiros de pessoas escravizadas no século 19. O material, encontrado no acervo histórico da Caixa Econômica Federal, pode ajudar a dimensionar valores depositados por escravizados e levantar discussões sobre reparação histórica aos descendentes.
Até o momento, o Ministério Público Federal identificou 158 cadernetas de poupança abertas por pessoas escravizadas antes da abolição da escravatura, oficializada em 1888.
A principal hipótese investigada é que parte desses recursos tenha sido acumulada para compra de alforrias, permitindo que pessoas escravizadas conquistassem juridicamente a liberdade.
O MPF determinou que a Caixa apresente informações detalhadas sobre os chamados “livros de conta corrente”, documentos históricos que registravam depósitos, saques e rendimentos das contas, incluindo juros semestrais de 6%.
Além da quantidade de registros existentes, o órgão quer saber qual metodologia será utilizada pelo banco para identificar e organizar os documentos, bem como quais equipes atuarão na apuração do acervo histórico.
Em nota, a Caixa informou que tem colaborado com as investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal no Rio de Janeiro e afirmou que já encaminhou todas as informações solicitadas dentro do prazo estabelecido.
O banco também destacou que mantém políticas permanentes de preservação do acervo histórico e ações voltadas ao combate ao racismo e à promoção da igualdade racial.
Segundo pesquisadores envolvidos no estudo, a dimensão do material armazenado impressiona. Se os documentos fossem colocados lado a lado, ocupariam cerca de 15 quilômetros de extensão — distância superior ao comprimento da orla de Copacabana, no Rio de Janeiro.
A historiadora Keila Grinberg, professora da Universidade de Pittsburgh, explica que o trabalho envolve triagem, catalogação, digitalização e criação de mecanismos de pesquisa para permitir acesso público aos registros.
Ela ressalta que ainda não é possível estimar quantas contas foram abertas por pessoas escravizadas antes da abolição, nem qual foi o destino final dos recursos depositados.
Para estudiosos da escravidão, a investigação representa uma oportunidade de romper o silêncio histórico sobre a segregação racial no Brasil.
O historiador Itan Cruz Ramos, da Universidade Federal da Bahia, afirma que o apagamento documental faz parte de uma estrutura histórica que dificultou o enfrentamento das consequências da escravidão no país.
Segundo ele, muitas perdas e deteriorações de arquivos não ocorreram por acaso, mas refletem um projeto histórico de invisibilização da experiência negra brasileira.
O pesquisador também destaca que o Fundo de Emancipação criado pela Lei do Ventre Livre, em 1871, acabou sendo desvirtuado ao longo do tempo. Inicialmente pensado para auxiliar pessoas escravizadas na conquista da liberdade, o recurso teria sido utilizado posteriormente para financiar a imigração europeia destinada às lavouras de café.
De acordo com levantamento citado por Cruz Ramos, o fundo acumulava em 1889 mais de 12 mil contos de réis, valor considerado extremamente elevado para a época e superior ao orçamento de alguns ministérios do Império.
Os pesquisadores defendem que ainda há muitos documentos e recursos históricos a serem descobertos sobre o período escravagista brasileiro e sobre os mecanismos econômicos ligados à escravidão e à liberdade no país.
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