A infância é marcada por brincadeiras, descobertas e aprendizados. É também nesse período que crianças começam a compreender regras de convivência, limites e formas de se relacionar com outras pessoas. Para especialistas, a participação dos pais nesse processo pode ser decisiva para ensinar meninos a respeitar meninas e combater comportamentos machistas desde cedo.
O analista de sistemas Cleomar Barros, de 43 anos, morador de Brasília, procura transformar situações do cotidiano em oportunidades para conversar com o filho Samuca, de 8 anos. Durante as férias, o menino passa boa parte do tempo entre futebol, pique-pega, esconde-esconde, skate e outras brincadeiras.
Em uma dessas ocasiões, Cleomar precisou interromper a rotina de diversão para conversar com o filho sobre respeito às meninas. O menino havia comentado com um amigo sobre uma situação envolvendo uma colega. O pai explicou que o corpo das meninas não deve ser motivo de piadas e que é necessário tratar as garotas com respeito.
Para Cleomar, a conversa precisa fazer parte da convivência familiar. Ele procura demonstrar aos filhos, por meio das próprias atitudes, como estabelecer relações de cuidado e respeito dentro de casa.
Profissionais que estudam masculinidade e relações familiares apontam que o comportamento dos adultos exerce forte influência sobre a formação das crianças. Mais do que discursos, atitudes observadas diariamente podem ajudar os meninos a desenvolver uma compreensão saudável sobre respeito, igualdade e responsabilidade.
O psicanalista Thiago Queiroz, criador do projeto Paizinho, Vírgula! e autor do livro Amor de pai, defende que os pais estejam atentos à maneira como tratam mulheres e homens nos diferentes ambientes frequentados pelos filhos.
Para ele, a convivência cotidiana permite que as crianças absorvam referências sobre como estabelecer relações. Por isso, o respeito às mulheres precisa estar presente de maneira natural nas atitudes dos adultos.
Cleomar também considera importante observar comentários e comportamentos dos meninos e conversar sobre eles sempre que necessário. Segundo ele, livros infantis podem ser utilizados para apresentar personagens femininas fortes e independentes, ajudando a ampliar a compreensão das crianças sobre igualdade.
Na medida em que os filhos crescem, o diálogo pode avançar para temas como violência contra as mulheres, relacionamentos e respeito aos limites individuais.
A construção de relações mais respeitosas não depende apenas de repreender comportamentos inadequados. Para especialistas, oferecer espaço para que os meninos expressem sentimentos e falem sobre suas dificuldades também é fundamental.
A psicóloga Bárbara Lobato, que trabalha com famílias em Brasília, avalia que o combate à misoginia precisa acontecer continuamente. Ela destaca a importância de os próprios homens reconhecerem e verbalizarem suas emoções para que consigam estabelecer uma comunicação mais aberta com os filhos.
Na adolescência, meninos podem enfrentar dificuldades relacionadas à convivência social, ao sentimento de pertencimento e à necessidade de serem aceitos pelos grupos. Quando essas questões não encontram espaço de diálogo, podem surgir dificuldades para compreender e expressar emoções.
Nesse contexto, a participação dos responsáveis é importante para acolher sentimentos, esclarecer dúvidas e ajudar os adolescentes a lidar com situações de conflito.
A escola também tem papel importante na formação de crianças e adolescentes. A professora e orientadora educacional Ana Paula Lilly, de 56 anos, que trabalha em Bauru, no interior de São Paulo, chama atenção para a influência das redes sociais e dos grupos de mensagens na formação dos jovens.
Segundo ela, conteúdos que reproduzem discursos de ódio e misoginia podem chegar aos adolescentes por meio do ambiente digital. Por isso, além do acompanhamento familiar, é necessário desenvolver educação digital e midiática.
A proposta é ensinar os jovens a analisar criticamente os conteúdos que consomem e identificar mensagens que incentivem preconceito, violência ou desrespeito.
Para Ana Paula, família e escola devem manter uma comunicação próxima e transmitir orientações coerentes sobre igualdade, respeito e responsabilidade. Quando situações de violência ou comportamento discriminatório são identificadas, os responsáveis precisam ser chamados para participar da solução.
A discussão sobre masculinidade também tem levado grupos de pais a criar espaços de conversa e apoio. Em São Paulo, um grupo lançou o Papicast, canal dedicado a discutir paternidade e questões relacionadas à criação dos filhos.
Um dos participantes, Tiago Koch, de 43 anos, também atua no projeto De Mano pra Mano, desenvolvido com meninos em escolas. Para ele, muitos garotos enfrentam dúvidas sobre como estabelecer relações com meninas e precisam encontrar adultos dispostos a ouvi-los.
Koch afirma que os pais enfrentam desafios diferentes daqueles vividos por gerações anteriores, especialmente diante da velocidade com que crianças e adolescentes são expostos a conteúdos digitais.
Ele defende que os meninos tenham espaços seguros para conversar sobre sentimentos, relacionamentos e conflitos, sem que a masculinidade seja associada obrigatoriamente à força, à violência, à superioridade ou à hipersexualização.
A maneira como as responsabilidades são distribuídas dentro de casa é outro elemento observado pelos especialistas. O ator e conferencista Tadeu França, pai de dois meninos e participante do Papicast, destaca que as crianças percebem quem realiza as diferentes tarefas domésticas.
Quando meninos crescem observando que cuidar da casa é responsabilidade exclusivamente das mulheres, podem acabar reproduzindo esse modelo em suas próprias relações. Por isso, dividir responsabilidades e demonstrar participação no cotidiano familiar também funciona como uma forma de educação.
Os participantes do projeto defendem ainda políticas públicas que valorizem a paternidade, incluindo medidas relacionadas à licença-paternidade e materiais educativos destinados às famílias.
O terapeuta Fábio Manzoli, de Jundiaí, interior de São Paulo, passou a discutir masculinidade saudável depois de refletir sobre experiências da própria infância. Entre as mensagens que recebeu quando criança estava a ideia de que homens não deveriam demonstrar emoções.
Ao se tornar pai de gêmeos, Manzoli passou a questionar esses padrões e percebeu a importância de mostrar aos filhos que homens também podem demonstrar sentimentos.
Para ele, permitir que meninos expressem tristeza, medo, insegurança ou frustração ajuda a romper com a ideia de que emoções são incompatíveis com a masculinidade.
O combate ao machismo não depende de uma única conversa. Especialistas ressaltam que a construção de relações baseadas em respeito acontece diariamente, por meio das atitudes dos adultos, do diálogo e da capacidade de estabelecer limites.
A família pode contribuir para que meninos compreendam desde cedo que meninas e meninos têm os mesmos direitos, que o corpo de cada pessoa deve ser respeitado e que nenhum comportamento de violência ou humilhação deve ser tratado como brincadeira.
Para Cleomar, ensinar o filho a respeitar as meninas significa também ajudá-lo a construir relações mais saudáveis no futuro. Enquanto Samuca volta às brincadeiras e à rotina da infância, o pai procura mostrar, pelo próprio comportamento, que respeito, cuidado e afeto também fazem parte da formação de um menino.
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