No sudeste do Pará, mulheres de Parauapebas vêm protagonizando uma transformação social e econômica por meio da bioeconomia. A produção de mel, cerâmica e biojoias feitas com sementes tem gerado renda, fortalecido a cultura local e incentivado a preservação da floresta amazônica.
Vivendo nas proximidades da Floresta Nacional de Carajás — região que abriga uma das maiores minas de ferro a céu aberto do mundo — essas mulheres utilizam recursos naturais de forma sustentável para desenvolver seus negócios e conquistar independência financeira.
Um dos destaques é a Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA), que há cerca de uma década atua na produção de mel por meio da apicultura e da meliponicultura (criação de abelhas sem ferrão).
A iniciativa não só contribui para a preservação ambiental como também amplia oportunidades de renda. Segundo Ana Alice de Queiroz, fundadora da associação, o projeto transformou a realidade das participantes.
Antes restritas ao ambiente doméstico, muitas dessas mulheres passaram a estudar, empreender e assumir funções de liderança. Atualmente, a associação reúne 23 famílias, com protagonismo feminino na gestão, comercialização e organização da produção.
Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas indicam que, em 2025, mais de 2 milhões de pequenos negócios foram abertos no Brasil por mulheres. Hoje, elas já somam 10,4 milhões de empreendedoras no país — crescimento de 27% em dez anos.
Apesar do avanço, ainda há desafios: no Pará, apenas 37,6% dos novos negócios são liderados por mulheres. Entre os principais obstáculos estão acesso ao crédito, sobrecarga de trabalho e menor faturamento médio.
Biojoias: arte, identidade e renda
Outro exemplo é a Associação Preciosidades da Amazônia, formada por mulheres que produzem biojoias com sementes nativas. O trabalho une sustentabilidade, identidade cultural e geração de renda.
As peças carregam histórias da floresta e têm fortalecido a economia local. Além disso, as artesãs passaram a atuar como multiplicadoras de conhecimento, oferecendo oficinas e capacitações.
A iniciativa conta com apoio de instituições como a Universidade Federal Rural da Amazônia, o Sebrae e a mineradora Vale.
Cerâmica com raízes ancestrais
O grupo Mulheres de Barro também se destaca. Formado durante ações de educação patrimonial ligadas a projetos arqueológicos na região de Carajás, o coletivo resgata técnicas ancestrais de cerâmica.
As peças são inspiradas em artefatos de até 6 mil anos e produzidas com materiais reaproveitados, como argila descartada na construção civil — uma solução sustentável que evita impactos ambientais.
Hoje, além da produção, o grupo promove cursos e oficinas, garantindo a transmissão do conhecimento para novas gerações.
Bioeconomia em expansão
Essas iniciativas fazem parte de um modelo econômico baseado no uso sustentável dos recursos naturais. No Pará, a bioeconomia movimenta cerca de R$ 13,5 bilhões por ano, impulsionada por cadeias produtivas ligadas à floresta e à agricultura familiar.
Projetos como esses recebem apoio do Fundo Vale, que já investiu mais de R$ 430 milhões em iniciativas voltadas ao desenvolvimento sustentável na região.
Além disso, o governo federal lançou o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), que busca fortalecer negócios ligados à sociobiodiversidade.
Mais do que gerar renda, esses empreendimentos mostram que é possível aliar desenvolvimento econômico, preservação ambiental e valorização cultural — com as mulheres no centro dessa transformação.
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