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Mudanças climáticas ameaçam modo de vida dos nômades da Mongólia

Secas, desertificação e invernos extremos pressionam pastores e aceleram a degradação das estepes mongóis.

redação Por redação
24/08/2026 - 08:45
em Brasil
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Secas, desertificação e eventos climáticos extremos ameaçam o nomadismo e a criação de animais nas estepes da Mongólia.

Imagem: Rafael Cardoso/Agência Brasil

Nas extensas estepes da Mongólia, os sinais da natureza sempre fizeram parte da rotina dos povos nômades. Para o pastor Batchuluun Maamun, de 57 anos, a direção dos ventos, a formação de nuvens e até a presença de um arco-íris ao redor do sol ajudam a antecipar mudanças no tempo.

O conhecimento transmitido entre gerações, porém, passou a conviver com uma realidade cada vez mais difícil. Secas prolongadas, temperaturas elevadas, redução das fontes de água e invernos rigorosos têm afetado as pastagens e aumentado a mortalidade dos animais.

Maamun vive com a família em uma comunidade de pastores localizada na zona de amortecimento do Parque Nacional de Hustai, a aproximadamente 100 quilômetros a sudoeste da capital Ulaanbaatar. A área permite a presença das comunidades e o uso do território, mas estabelece regras para preservar o ambiente.

Há 27 anos, a família se mudou para a região em busca de melhores condições. A viagem percorreu cerca de mil quilômetros. Como parte da tradição nômade, os pastores continuam se deslocando conforme as estações do ano.

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Durante o verão, permanecem no acampamento atual. Quando chega o inverno, a família se transfere para uma cabana situada a cerca de 10 quilômetros, onde encontra maior proteção contra as baixas temperaturas.

A vida na estepe depende diretamente das condições ambientais. Quando a vegetação diminui ou as fontes de água secam, os animais encontram mais dificuldade para sobreviver.

Maamun conhece os efeitos desse processo. Em 2010, um inverno extremo, conhecido como dzud, matou 700 dos 1,3 mil animais que pertenciam à família. Durante outro episódio de dzud, em 2020, cerca de 20% do rebanho foi perdido.

O dzud é um fenômeno climático característico da Mongólia que pode combinar condições severas, como frio intenso, neve e dificuldade de acesso dos animais às pastagens.

Além dos eventos extremos, outros fatores pressionam o território, entre eles o sobrepastoreio, a mineração, a degradação das pastagens e a diminuição dos recursos hídricos.

Dados da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) indicam que entre 70% e 76% do território mongol sofre algum grau de desertificação ou degradação do solo. A área afetada corresponde a aproximadamente 36 milhões de hectares.

Episódios recentes de seca prejudicaram a vegetação e fizeram ovelhas, cabras, cavalos e bois sofrerem com o calor. Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil

A pressão sobre as pastagens também está relacionada ao crescimento dos rebanhos. Segundo dados oficiais do governo mongol, o país tinha aproximadamente 58 milhões de animais em 2025, número 0,8% superior ao registrado no ano anterior.

Antes do dzud de 2023, o rebanho havia alcançado cerca de 71 milhões de animais. O inverno rigoroso provocou a morte de milhões de animais.

A quantidade de animais é muito superior à população humana do país, estimada em aproximadamente 3,4 milhões de habitantes. Cerca de 700 mil pessoas vivem como nômades ou seminômades.

Apesar de possuir uma das maiores extensões territoriais do mundo, a Mongólia é um dos países menos povoados do planeta.

Diante da degradação das pastagens, famílias de pastores passaram a adotar estratégias para diminuir a pressão sobre determinadas áreas.

Maamun e seus vizinhos, por exemplo, decidiram deixar uma região utilizada anteriormente para a criação de animais sem atividade durante dois anos. A intenção era permitir que a vegetação se recuperasse naturalmente. Quando voltaram ao local, encontraram novamente áreas com vegetação.

A experiência reforçou entre os moradores a percepção de que o manejo das pastagens precisa respeitar o tempo de recuperação do solo.

Outra estratégia adotada por criadores é reduzir a quantidade de animais e buscar maior aproveitamento da produção. O objetivo é aumentar o valor obtido com leite, carne, lã e outros produtos sem ampliar continuamente o tamanho dos rebanhos.

Para Maamun, essa mudança representa uma transformação na maneira de encarar a criação.

A preocupação com o futuro também envolve as novas gerações. Oyunchimeg Shuurai, de 53 anos, mulher de Maamun, considera que os conhecimentos tradicionais precisam ser combinados com novas formas de produção e de relacionamento com o território.

O casal tem quatro filhos. Eles não pretendem obrigar os jovens a seguir a atividade pastoril, mas gostariam que pelo menos um deles decidisse continuar a tradição familiar.

Para a família, a continuidade do nomadismo depende de uma escolha e da capacidade de adaptar o modo de vida às mudanças ambientais.

A própria rotina já incorpora tecnologias modernas. A família utiliza painéis solares para produzir eletricidade e conservar alimentos. Durante o inverno, o esterco seco dos animais é utilizado como combustível para aquecer a residência, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis.

As dificuldades enfrentadas pelos pastores ocorrem no momento em que autoridades e especialistas discutem alternativas para combater a degradação das terras.

A capital Ulaanbaatar recebe a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que reúne representantes para discutir temas como seca, recuperação dos solos e financiamento de ações ambientais.

Para Maamun, o debate internacional representa uma oportunidade para que os problemas enfrentados pelas comunidades nômades sejam considerados nas políticas de preservação.

A expectativa é encontrar soluções que permitam conciliar a atividade pastoril, a preservação das pastagens e a sobrevivência de uma tradição que atravessa gerações.

Para a família, preservar a estepe não significa simplesmente impedir seu uso, mas aprender a utilizá-la dentro de seus limites naturais.

“Quando a única preocupação passa a ser o lucro, a terra acaba sendo destruída”, resume Oyunchimeg.

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Tags: #CriseClimática#DegradacaoDoSolo#MeioAmbiente#MudançaClimática#MudançasClimáticas#Natureza#Nomades#Pastagens#Pecuária#PreservaçãoAmbientalClimaSustentabilidade
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