Um levantamento divulgado nesta quarta-feira (1º) revela que a maioria das pessoas mortas em decorrência de ações policiais no Brasil continua sendo formada por jovens negros. De acordo com a sétima edição do relatório Pele Alvo – Entre Racismo e Letalidade, o Amanhã, produzido pela Rede de Observatórios em parceria com o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), nove estados brasileiros registraram 4.330 mortes provocadas por intervenções policiais em 2025, aumento de 6,4% em comparação com o ano anterior.
Segundo o estudo, 3.104 vítimas eram pessoas pretas ou pardas, o equivalente a 86,3% dos casos em que houve identificação racial. A pesquisa reúne informações fornecidas pelas secretarias de Segurança Pública do Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.
O levantamento também mostra que a violência policial continua afetando principalmente a população jovem. Das mortes registradas, 64,8% envolveram pessoas de até 29 anos, totalizando 2.804 vítimas. Entre elas, 310 eram crianças e adolescentes.
Os pesquisadores afirmam que o perfil das vítimas permanece praticamente inalterado ao longo dos anos, atingindo principalmente homens negros moradores de periferias e comunidades.
O relatório aponta que pessoas negras têm, em média, quatro vezes mais chances de morrer durante ações policiais do que pessoas brancas. Em alguns estados, essa diferença é ainda mais acentuada.
Em Pernambuco, por exemplo, a probabilidade de uma pessoa negra ser morta em uma intervenção policial é 11 vezes maior. No Rio de Janeiro, esse risco é seis vezes superior ao observado entre pessoas brancas.
Os autores do estudo defendem que o racismo estrutural continua sendo um dos principais fatores para compreender o perfil das vítimas da violência policial no país.
O documento também destaca mudanças no cenário da criminalidade, especialmente com a expansão de organizações criminosas para as regiões Norte e Nordeste.
Segundo os pesquisadores, a atuação de grupos como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), aliada à disputa por rotas do tráfico de drogas, tem influenciado o aumento da violência em diversos estados.
Entre os estados analisados, Ceará, Maranhão, Pará e São Paulo apresentaram os maiores números de mortes decorrentes de ações policiais desde 2019.
O Maranhão registrou o maior crescimento proporcional em 2025, com alta de 86,8% em relação ao ano anterior. Mais da metade das vítimas tinha entre 18 e 29 anos.
Na Bahia, apesar da redução em relação a 2024, o estado contabilizou 1.570 mortes provocadas por agentes de segurança. O estudo destaca que apenas 19 dias do ano transcorreram sem registros desse tipo de ocorrência.
Pernambuco também apresentou aumento expressivo de 30,8% na letalidade policial. Já Pará e São Paulo registraram crescimento de 12,3% e 2,3%, respectivamente.
O Rio de Janeiro teve aumento de 13,8% nas mortes em ações policiais, enquanto o Amazonas manteve números semelhantes aos do ano anterior. O Piauí foi o único estado a registrar redução, com queda de 16,67%.
Os pesquisadores chamam atenção para a deficiência no preenchimento das informações sobre raça e cor das vítimas em alguns estados.
No Maranhão, mais da metade dos registros ainda não informa o perfil étnico-racial das vítimas, embora tenha ocorrido melhora em relação aos anos anteriores. Situação semelhante foi observada no Ceará, onde mais de 57% dos casos permanecem sem essa identificação.
Segundo o estudo, a ampliação do registro dessas informações elevou significativamente o número de vítimas negras identificadas, reforçando a necessidade de maior transparência nos dados oficiais.
Entre os estados citados na pesquisa, apenas Pernambuco e Rio de Janeiro enviaram posicionamentos à Agência Brasil.
A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco afirmou que todas as operações seguem critérios técnicos, legais e operacionais, priorizando a preservação da vida. A pasta informou ainda que não utiliza características pessoais, como cor da pele, para definir ações policiais e destacou investimentos em treinamento, inteligência e apuração rigorosa de ocorrências que resultam em mortes.
Já o Governo do Rio de Janeiro informou que o indicador de Mortes por Intervenção de Agentes do Estado apresentou redução de 12% entre janeiro e maio de 2026, alcançando o menor índice para o período desde 2014. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, as forças policiais atuam com planejamento e inteligência, atribuindo os confrontos à resistência de grupos criminosos.
Os demais estados citados no relatório não responderam aos pedidos de manifestação até a divulgação da reportagem.
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