A mangaba, fruto que integra a identidade cultural e ambiental de Sergipe, tornou-se também um símbolo da resistência das comunidades extrativistas que dependem da preservação das áreas naturais para garantir renda, cultura e qualidade de vida. Em Aracaju, um dos últimos remanescentes de mangabeiras da capital sofre pressão constante da expansão imobiliária, colocando em risco décadas de tradição mantidas principalmente por mulheres que vivem da coleta e do beneficiamento do fruto.
Na região sul da cidade, as famílias organizadas pela Associação das Catadoras e Catadores de Mangaba Padre Luiz Lemper trabalham para proteger o território e manter vivo um modo de vida transmitido entre gerações. Além da coleta da fruta, a associação atua na preservação dos conhecimentos tradicionais, na organização comunitária e no diálogo com órgãos públicos.
O reconhecimento desse trabalho veio com a conquista do primeiro lugar na categoria Povos e Comunidades Tradicionais do Prêmio Guardiãs da Sociobiodiversidade, concedido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. O recurso obtido permitiu a realização de oficinas, estudos e projetos voltados ao fortalecimento da cadeia produtiva da mangaba e ao desenvolvimento do turismo de base comunitária, em parceria com a Universidade Federal de Sergipe e a Embrapa.
As famílias extrativistas utilizam duas áreas protegidas vizinhas: a Reserva Extrativista Mangabeiras Missionário Uilson de Sá e um terreno da União destinado ao uso sustentável da comunidade. Embora possuam diferentes formas de gestão, ambas constituem um único território tradicional onde o extrativismo é praticado há mais de 80 anos.
Durante a 5ª Festa da Colheita, realizada em junho, foi lançado o Plano de Manejo Popular da reserva. Elaborado pelas próprias famílias, o documento reúne a história da comunidade, mapeia os recursos naturais e estabelece diretrizes para a conservação ambiental e a gestão participativa da área.
A proposta surgiu como forma de assegurar que futuras decisões sobre o território considerem o conhecimento e as necessidades das próprias catadoras, evitando intervenções que possam comprometer a finalidade da reserva, criada para proteger tanto o meio ambiente quanto a permanência das comunidades tradicionais.
Expansão urbana reduziu áreas de coleta
A convivência entre o crescimento urbano e o extrativismo tornou-se um dos maiores desafios enfrentados pelas famílias. A partir da década de 2010, diversos empreendimentos imobiliários passaram a ocupar áreas antes utilizadas para a coleta da mangaba.
Segundo lideranças locais, a criação da reserva representou um avanço importante, mas ocorreu somente após a derrubada de centenas de mangabeiras e não contemplou toda a área tradicional utilizada pelas extrativistas.
Nesse período ganhou destaque a atuação do missionário católico Uilson de Sá, que mobilizou moradores em defesa do território e buscou conciliar a luta das catadoras com movimentos por moradia popular. Após sua morte, em 2022, seu nome passou a identificar oficialmente a reserva extrativista, tornando-se um símbolo da resistência da comunidade.
Mesmo com a criação da unidade de conservação, as catadoras afirmam que continuam convivendo com preocupações relacionadas à segurança e à possibilidade de novas ocupações.
Além da redução do território, as mudanças na paisagem têm afetado diretamente a produção da mangaba. A urbanização alterou o ambiente natural, diminuindo a presença de polinizadores essenciais para o desenvolvimento das árvores.
As mangabeiras mais próximas das áreas urbanizadas apresentam menor produtividade, consequência da perda da vegetação que funcionava como área de amortecimento entre a floresta e os empreendimentos residenciais.
Patrimônio cultural de Sergipe
Muito apreciada na culinária nordestina, a mangaba é rica em vitamina C, fibras e antioxidantes. O fruto integra o patrimônio cultural de Sergipe, assim como o ofício das catadoras, reconhecido oficialmente pela legislação estadual.
Além do consumo in natura, a fruta é utilizada na fabricação de diversos produtos, entre eles;
- geleias;
- doces;
- bolos;
- pães;
- biscoitos;
- licores;
- vinhos;
- vinagres.
A produção desses alimentos representa uma importante fonte de renda para dezenas de famílias, especialmente durante o período da safra.
Embora a mangaba seja um dos principais símbolos do estado, Sergipe deixou de ocupar a liderança nacional na produção extrativista do fruto.
Dados da Pesquisa da Extração Vegetal e da Silvicultura (Pevs) de 2023, do IBGE, mostram que o estado atualmente ocupa a quarta posição no ranking nacional, atrás da Paraíba, Rio Grande do Norte e Minas Gerais.
Especialistas atribuem essa mudança principalmente à redução das áreas naturais provocada pelo crescimento urbano e pelas alterações no uso do solo, fatores que diminuíram significativamente os espaços destinados ao extrativismo tradicional.
Entre as propostas previstas no Plano de Manejo Popular está a construção da Casa da Mangaba, espaço destinado ao beneficiamento da produção, instalação da sede da associação e criação de um museu dedicado à história das catadoras.
Outro projeto prevê o fortalecimento do turismo de base comunitária, permitindo que visitantes conheçam a cultura local, participem de experiências ligadas ao extrativismo e valorizem os saberes tradicionais.
A iniciativa também pode gerar renda complementar durante a entressafra, período em que muitas mulheres precisam buscar outras atividades para garantir o sustento da família.
As catadoras ainda defendem maior acesso a programas públicos, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), ampliando a comercialização da produção e fortalecendo a economia das comunidades.
Em nota, a Prefeitura de Aracaju informou que trabalha para viabilizar a implantação da unidade de beneficiamento da mangaba e afirmou que o projeto arquitetônico já foi elaborado com participação das próprias catadoras.
A administração municipal também declarou que realiza fiscalização ambiental contínua, intensificou rondas da Guarda Municipal na região e desenvolve ações para minimizar impactos ambientais causados por animais próximos à reserva.
Segundo o município, não existem planos para transformar a reserva extrativista em um parque urbano de acesso público, destacando que a autonomia das comunidades tradicionais sobre o território está sendo respeitada e que a gestão da área dependerá do funcionamento do conselho gestor e da implementação das estruturas previstas para fortalecer o extrativismo local.
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