No silêncio das madrugadas sem sono, nas ligações que despertam esperança e na rotina marcada pela ausência, mães de filhos desaparecidos seguem lutando para que suas histórias não sejam esquecidas. Neste Dia das Mães, celebrado neste domingo (10), mulheres de diferentes regiões do Brasil compartilham a dor profunda de viver sem notícias dos filhos e reforçam o apelo por mais atenção, investigação e apoio.
Somente em 2025, o Brasil registrou 84.760 desaparecimentos. Entre os familiares, permanece a expectativa de reencontrar quem sumiu, seja há poucos meses ou há décadas. Em comum, essas mães carregam a esperança de voltar a abraçar os filhos e recuperar parte da vida interrompida pela ausência.
Na zona rural de Bacabal, no Maranhão, a jovem Clarice Cardoso, de 27 anos, vive um drama que já dura mais de quatro meses. Os filhos Ágatha Isabelle, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, desapareceram no dia 4 de janeiro após saírem para brincar próximo à mata da comunidade quilombola São Sebastião dos Pretos. Eles estavam acompanhados do primo Anderson, de 8 anos, que foi localizado posteriormente.
Além da angústia da espera, Clarice enfrenta julgamentos e preconceito. Ela acredita que o racismo também influencia a forma como parte da sociedade reage ao caso.
“A gente percebe os olhares e comentários. Algumas pessoas demonstram solidariedade, mas outras julgam”, lamenta.
Mãe também de André, de 9 anos, Clarice afirma que tenta manter a rotina do filho mais velho enquanto vive na expectativa de qualquer novidade sobre o paradeiro das crianças. O marido, Márcio, trabalha como montador autônomo, mas a família afirma viver com a vida praticamente paralisada desde o desaparecimento.
Segundo Clarice, qualquer telefonema desperta esperança.
“A cada ligação penso que pode ser uma pista ou notícia dos meus filhos”, conta emocionada.
A mãe relata ainda que sua própria mãe sofreu um acidente de moto durante uma viagem em busca de informações sobre as crianças. Enquanto isso, as investigações seguem em andamento. A polícia afirma que todas as possibilidades estão sendo apuradas.
Rede de apoio transforma dor em acolhimento
Em São Paulo, Ivanise Espiridião, de 63 anos, conhece profundamente essa realidade. Há quase 30 anos, ela procura pela filha Fabiana, desaparecida desde 23 de dezembro de 1995, quando tinha apenas 13 anos.
Da dor pessoal nasceu o movimento Mães da Sé, uma das maiores redes de apoio a familiares de desaparecidos no Brasil. Atualmente, o grupo reúne mais de seis mil mães em diferentes estados.
Ivanise explica que o Dia das Mães costuma despertar sentimentos contraditórios.
“É uma mistura de amor pelos filhos que estão presentes e tristeza pela ausência de quem desapareceu”, afirma.
Ao longo dos anos, ela transformou a busca pela filha em trabalho de acolhimento e orientação para outras famílias. O grupo também utiliza tecnologia para ajudar na localização de desaparecidos, por meio do aplicativo Family Faces, que usa reconhecimento facial para cruzar imagens com bancos de dados da associação.
Ela alerta ainda para um direito pouco conhecido por muitas famílias: não é necessário esperar 24 horas para registrar o desaparecimento de uma pessoa.
“Ninguém precisa esperar. O boletim deve ser registrado imediatamente, principalmente em casos envolvendo crianças e adolescentes”, destaca.
A legislação brasileira determina que as autoridades iniciem as buscas assim que a ocorrência for comunicada.
Especialistas alertam que familiares de desaparecidos frequentemente desenvolvem quadros de ansiedade, depressão e crises de pânico. A psicóloga Melânia Barbosa, pesquisadora da área, explica que a ausência sem respostas provoca um sofrimento emocional específico e prolongado.
“O principal é que essas pessoas não se sintam sozinhas. O acolhimento e a escuta fazem diferença”, afirma.
Segundo ela, o poder público precisa ampliar a oferta de suporte psicológico para familiares de desaparecidos. A especialista também destaca a importância dos grupos de apoio para fortalecer emocionalmente essas mães.
Outra integrante do Mães da Sé, Lucineide Damasceno, de 60 anos, busca pelo filho Felipe, desaparecido desde 2008, quando tinha 16 anos. O jovem saiu de moto para encontrar um amigo e nunca mais voltou.
Após enfrentar crises de pânico, Lucineide decidiu criar a ONG Abrace, que oferece auxílio emocional e até alimentação para famílias em situação de vulnerabilidade.
Mesmo após tantos anos, ela não perde a esperança de reencontrar o filho.
“Eu ainda espero ouvir ele bater no portão e dizer: ‘mãe, estou aqui’”, diz.
Lucineide mantém um ritual que emociona familiares e amigos. Todos os anos, coloca um presente para Felipe embaixo da árvore de Natal, guardando cada lembrança na expectativa do reencontro.
Entre lágrimas, saudade e resistência, mães de filhos desaparecidos seguem transformando a dor em luta. Neste Dia das Mães, elas pedem apenas que o país não esqueça de seus filhos e que mais pessoas ajudem a manter viva a esperança.
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