Em meio às celebrações de Corpus Christi realizadas nesta quinta-feira (4), na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, jovens de diferentes comunidades do Distrito Federal transformaram a tradicional confecção dos tapetes religiosos em um momento de convivência, amizade e fortalecimento dos vínculos comunitários.
Enquanto ajudava a montar o desenho de um cálice utilizando areia colorida, tinta, sal e serragem, a estudante Vitória Nunes, de 18 anos, destacou que a experiência vai muito além da tradição religiosa. Para ela, a participação nas atividades da igreja proporciona encontros genuínos em uma época marcada pelo uso intenso das redes sociais e das tecnologias digitais.
Segundo a jovem, que coordena o grupo de juventude da Paróquia São José, na comunidade Lúcio Costa, os relacionamentos construídos presencialmente fortalecem os laços de amizade e ajudam a enfrentar desafios emocionais enfrentados por muitos adolescentes.
Vitória contou que sua comunidade tem enfrentado períodos de tensão devido a processos de reintegração de posse na região. Diante desse cenário, muitas famílias e jovens buscaram apoio na igreja para enfrentar as dificuldades.
Para ela, os grupos religiosos oferecem um ambiente de acolhimento, solidariedade e escuta, ajudando a reduzir sentimentos de isolamento e contribuindo para o bem-estar emocional dos participantes.
A estudante também ressaltou a importância do apoio familiar para a permanência dos jovens nas atividades comunitárias e religiosas.
Tradição feita à mão
Os tapetes confeccionados na Esplanada dos Ministérios formaram um corredor de aproximadamente 125 metros de extensão, reunindo 27 diferentes obras produzidas por voluntários de várias regiões do Distrito Federal.
Desde as primeiras horas da manhã, adolescentes e jovens adultos trabalharam na montagem dos desenhos, utilizando materiais tradicionais e técnicas artesanais. Entre uma atividade e outra, rodas de conversa, músicas e momentos de descontração marcaram o ambiente.
A publicitária Luiza Helena Teixeira, de 24 anos, que participa da celebração desde 2019, teve um dos desenhos escolhidos para representar sua comunidade. Ela destacou a satisfação de ver o projeto ganhar forma por meio do trabalho coletivo.
Inclusão e protagonismo de pessoas surdas
Outro grupo que chamou atenção durante a celebração foi o formado por integrantes da Pastoral dos Surdos. Participando da montagem de um dos tapetes, os voluntários defenderam a ampliação das políticas de inclusão e oportunidades para pessoas com deficiência auditiva.
Entre eles estava Márcio da Cruz, de 36 anos, morador de Planaltina. Atualmente desempregado, ele sonha em atuar na área de informática e vê nas atividades comunitárias uma oportunidade de integração social e fortalecimento da autoestima.
As mensagens transmitidas por Márcio foram interpretadas pela professora Daniele Galeno, uma das coordenadoras da pastoral, que ressaltou a importância de iniciativas que incentivem a participação dos jovens em atividades presenciais e coletivas.
A mãe de Márcio, Vânia Lúcia da Cruz, destacou os desafios enfrentados pelos surdos no mercado de trabalho e afirmou que momentos de convivência como o de Corpus Christi ajudam a promover mais felicidade, integração e senso de pertencimento.
Desafio de atrair jovens para longe das telas
A celebração também contou com a participação do Movimento Escalada, grupo voltado para a evangelização da juventude.
A diretora do movimento, Mariana Abrantes, estudante de enfermagem de 23 anos, reconhece que despertar o interesse dos jovens em um mundo dominado pelas telas não é uma tarefa simples. No entanto, acredita que a aproximação acontece quando as atividades dialogam com a realidade e os interesses dessa geração.
Segundo ela, a convivência presencial, as amizades construídas na comunidade e as experiências compartilhadas continuam sendo fundamentais para o desenvolvimento pessoal e espiritual dos participantes.
Em meio às cores dos tapetes, aos cantos religiosos e aos encontros entre amigos, a celebração de Corpus Christi em Brasília mostrou que tradições centenárias continuam encontrando espaço entre os jovens, fortalecendo valores como solidariedade, inclusão, fé e convivência humana.
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