Para Kaio, de 42 anos, a notícia de que as plataformas de apostas on-line foram proibidas no Brasil trouxe uma sensação que há muito tempo não experimentava: alívio. Nos últimos seis anos, ele viu a dependência em jogos provocar perdas financeiras e mudanças profundas em sua vida. Carro, casa e emprego ficaram para trás, enquanto as dívidas se acumulavam. Atualmente, ele vive sozinho em uma cidade do interior de Goiás e, por causa das dívidas contraídas com agiotas, decidiu se afastar da família e passou a dormir no chão de um pequeno dormitório.
Neste ano, Kaio começou a buscar tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde participa de consultas médicas e grupos terapêuticos e utiliza medicamentos prescritos. A proibição das bets foi determinada pela Medida Provisória 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 25 de setembro de 2026. A medida revogou dispositivos da legislação de 2018 que permitiam a exploração das apostas de quota fixa no país. Embora autorizadas desde 2018, as plataformas só passaram por um processo mais amplo de regulamentação a partir de dezembro de 2023.
Entre as regras estabelecidas durante a regulamentação estavam medidas de proteção aos apostadores, como mensagens de alerta e campanhas de desestímulo ao jogo. A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que pessoas em condições sociais e financeiras mais frágeis podem ficar mais expostas ao risco de desenvolver comportamento compulsivo. Segundo a especialista, a publicidade também contribuiu para criar a percepção de que as apostas poderiam funcionar como uma forma rápida de aumentar a renda.
Os impactos financeiros alcançaram cifras bilionárias. Dados divulgados pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) apontaram que as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025. O cálculo considera a diferença entre o dinheiro utilizado nas apostas e os valores devolvidos aos jogadores em prêmios. Além do prejuízo financeiro, especialistas também alertam para as consequências emocionais e sociais provocadas pelo comportamento compulsivo.
O problema também chegou aos mais jovens. Uma pesquisa realizada com 1.912 estudantes de 191 escolas brasileiras mostrou que 20,4% dos alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio afirmaram ter feito algum tipo de aposta on-line. O levantamento identificou ainda relatos de apostas entre estudantes de apenas 11 anos. Para especialistas, adolescentes podem apresentar maior vulnerabilidade ao comportamento impulsivo porque áreas do cérebro responsáveis pelo controle dos impulsos e pela avaliação de riscos ainda estão em processo de amadurecimento.
Além do endividamento, profissionais de saúde chamam atenção para situações de ansiedade intensa, isolamento social, aumento do consumo de álcool, desesperança e pensamentos relacionados à morte. A psicóloga Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, destaca que a sensação de recompensa provocada pelo jogo pode favorecer a repetição do comportamento. Para a psiquiatra Katia Branco, manifestações de ideação suicida precisam ser identificadas e tratadas de forma adequada durante o acompanhamento médico e psicológico.
Outro fator apontado pelos especialistas é a facilidade de acesso às plataformas. Com as apostas disponíveis diretamente pelo celular, o usuário podia jogar a qualquer hora e sem precisar sair de casa. Luiz Carlos*, de 71 anos, integrante do grupo Jogadores Anônimos, compara o cenário a um cassino que permanece dentro do bolso do apostador. Diante do avanço dos problemas relacionados à dependência, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou os serviços de atendimento remoto para pessoas com dificuldades associadas às bets.
Após o anúncio da proibição, o Ministério da Saúde informou que pretende intensificar a busca ativa de apostadores considerados de maior risco, oferecendo acompanhamento e tratamento quando necessário. Especialistas ressaltam que o fim das plataformas não elimina automaticamente a dependência e que pessoas afetadas pelo jogo podem continuar precisando de acompanhamento médico e psicológico para enfrentar dívidas, ansiedade e conflitos familiares. A orientação é procurar ajuda profissional e contar com o apoio de familiares e amigos. Os Caps podem avaliar cada caso e indicar o acompanhamento adequado.
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