A maior parte das cidades brasileiras ainda não está preparada para enfrentar os impactos do calor extremo. Um estudo divulgado na última quarta-feira (3) pela presidência brasileira da COP30 e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) revelou que 66% dos municípios participantes estão apenas iniciando ou sequer começaram a desenvolver planos de ação para lidar com o fenômeno.
O levantamento integra a iniciativa internacional Mutirão Contra o Calor Extremo (Beat the Heat), vinculada à Coalizão pelo Resfriamento (Cool Coalition), que reúne atualmente 258 cidades em diferentes países, sendo 105 delas brasileiras.
Segundo os pesquisadores, o calor extremo vai além de um simples dia de altas temperaturas. O fenômeno ocorre quando o calor acumulado ao longo do dia não é dissipado durante a noite por dois ou mais dias consecutivos, criando um efeito acumulativo que compromete a recuperação do organismo humano e da infraestrutura urbana.
Nesse cenário, residências permanecem aquecidas durante a madrugada, o asfalto continua irradiando calor, a qualidade do sono diminui e os impactos sobre a saúde se intensificam. Além disso, sistemas de abastecimento de água, energia e produção agrícola passam a operar sob pressão crescente.
Ameaça crescente à saúde pública
O estudo destaca que o calor extremo se tornou uma das principais ameaças relacionadas às mudanças climáticas. Dados do Pnuma apontam que o fenômeno provoca aproximadamente 500 mil mortes por ano em todo o mundo.
No Brasil, entre os anos de 2000 e 2020, as ondas de calor foram associadas a cerca de 50 mil mortes nas regiões metropolitanas, número superior ao total de vítimas provocadas por enchentes e deslizamentos de terra no mesmo período.
Para a CEO da COP30, Ana Toni, a adaptação das cidades exige uma atuação integrada entre governos, setor privado e sociedade civil.
Segundo ela, o calor extremo tem alterado profundamente a rotina das populações, afetando desde o desempenho escolar até atividades esportivas, militares e econômicas, além de comprometer a qualidade de vida nas áreas urbanas.
Desafios para a adaptação
Criado em 2025, o Mutirão Contra o Calor Extremo tem como objetivo auxiliar os municípios na elaboração de diagnósticos, planos de ação e estratégias de financiamento para aumentar a resiliência urbana diante das altas temperaturas.
A expectativa é que, nos próximos 12 a 18 meses, 51% das cidades participantes desenvolvam políticas públicas específicas para o enfrentamento do problema. Outras 28% planejam implementar intervenções em áreas mais vulneráveis, beneficiando aproximadamente 7 milhões de pessoas.
Apesar de 93% dos gestores municipais reconhecerem o calor extremo como um problema importante e 68% o apontarem entre os três maiores desafios locais, a pesquisa identificou dificuldades significativas para transformar essa percepção em ações concretas.
Entre os principais obstáculos estão a falta de dados qualificados, limitações na governança e escassez de recursos financeiros.
Atualmente, 75% dos municípios não utilizam informações estruturadas para apoiar decisões relacionadas ao calor extremo, enquanto 85% dependem de recursos externos para financiar medidas de adaptação. Apenas 42% contam com sistemas geográficos capazes de mapear áreas de risco.
Soluções verdes lideram iniciativas
O levantamento mostra que as principais medidas adotadas pelas cidades brasileiras estão relacionadas às soluções baseadas na natureza.
Ações como plantio de árvores, ampliação de áreas verdes, criação de espaços sombreados, implantação de parques urbanos, telhados verdes e recuperação de áreas úmidas já estão presentes em 77% dos municípios analisados.
Por outro lado, estratégias voltadas ao resfriamento passivo de edifícios e espaços urbanos ainda são pouco utilizadas. Recursos como ventilação cruzada, pavimentos permeáveis, isolamento térmico e materiais refletivos aparecem em apenas 21% ou menos das cidades pesquisadas.
Outra fragilidade identificada está nas compras públicas. Mais de 80% dos municípios ainda não adotaram critérios sustentáveis voltados à redução do calor urbano, demonstrando que o tema ainda não está incorporado de forma estruturada às políticas de gestão.
Possível Super El Niño acende alerta
A necessidade de acelerar as medidas de adaptação ganha ainda mais importância diante das projeções climáticas para os próximos meses.
Especialistas alertam para a possibilidade de formação de um Super El Niño durante a segunda metade de 2026. As previsões foram confirmadas pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Caso o fenômeno se confirme, os impactos poderão incluir secas mais severas e aumento dos incêndios florestais nas regiões Norte e Nordeste, intensificação das ondas de calor no Centro do país e episódios de chuvas extremas no Sul.
Diante desse cenário, especialistas reforçam a necessidade de planejamento urbano, investimentos em infraestrutura resiliente e fortalecimento das políticas públicas voltadas à adaptação climática para reduzir os impactos do calor extremo sobre a população brasileira.
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