Os recentes ataques ao voto feminino voltaram a acender o debate sobre a proteção dos direitos políticos das mulheres no Brasil. Especialistas ouvidas pela Agência Brasil afirmam que as declarações reproduzem discursos antigos, utilizados desde o fim do século XIX para limitar a participação feminina na vida pública.
A polêmica ganhou força após declarações do influenciador Paulo Figueiredo, que questionou o comportamento eleitoral das mulheres. Para pesquisadoras dedicadas ao estudo do sufrágio feminino, esse tipo de manifestação não representa uma novidade histórica, mas sim a continuidade de uma tradição marcada pelo machismo e pela tentativa de restringir direitos já consolidados.
Segundo a professora de Direito Fernanda Abreu, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), o direito ao voto das mulheres foi resultado de décadas de mobilização e enfrentamento à resistência institucional.
Ela destaca que a Constituição Federal de 1988 garante o sufrágio universal, sem distinção de sexo, tornando qualquer discurso que proponha restrições ao voto feminino incompatível com os princípios constitucionais da igualdade e da não discriminação.
A pesquisadora também observa que movimentos contrários ao feminismo em outros países influenciam parte das manifestações atuais, que buscam questionar avanços históricos conquistados pelas mulheres.
Para a historiadora Cibele Tenório, pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), os ataques atuais refletem um problema estrutural que atravessa gerações.
Ela lembra que as sufragistas brasileiras enfrentaram forte oposição para conquistar o direito ao voto e desenvolveram estratégias políticas e sociais que possibilitaram avanços importantes na cidadania feminina.
Entre essas pioneiras está Almerinda Gama, considerada uma das primeiras mulheres negras a atuar na política brasileira, além de nomes como Leolinda Daltro e Bertha Lutz, que lideraram movimentos em defesa da participação política das mulheres.
Nas eleições de 2026, as mulheres representam mais da metade do eleitorado brasileiro. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que mais de 83,8 milhões de eleitoras estão aptas a votar, número superior ao de homens registrados para o pleito.
As pesquisadoras avaliam que, justamente por esse protagonismo eleitoral, discursos que tentam desqualificar o voto feminino podem funcionar como instrumentos de intimidação política e de desestímulo à participação das mulheres na democracia.
Além de serem maioria entre os eleitores, as brasileiras também apresentam índices elevados de escolaridade em comparação aos homens em diversos níveis de ensino, segundo estatísticas do TSE.
A luta pelo voto feminino começou a ganhar força nas primeiras décadas do século XX com organizações como o Partido Republicano Feminino e, posteriormente, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.
O principal avanço ocorreu em 1932, quando o primeiro Código Eleitoral passou a reconhecer oficialmente o direito das mulheres de votar e serem votadas. Dois anos depois, a Constituição de 1934 consolidou essa garantia.
Em 1946, o voto tornou-se obrigatório para mulheres alfabetizadas. Já a Constituição de 1988 eliminou restrições relacionadas à alfabetização, fortalecendo o princípio da igualdade política entre homens e mulheres.
Para as pesquisadoras, preservar a memória das lideranças femininas que participaram dessa trajetória é essencial para evitar retrocessos.
Além do fortalecimento das políticas públicas voltadas à participação política das mulheres, elas defendem investimentos em educação e na valorização da história das sufragistas brasileiras como forma de ampliar a consciência democrática e combater discursos discriminatórios.
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