O enfrentamento à violência contra a mulher ganha atenção especial durante o Agosto Lilás, campanha realizada anualmente para ampliar a conscientização sobre o problema e divulgar os caminhos de proteção e assistência disponíveis às vítimas.
Em 2026, a mobilização ocorre no mesmo ano em que a Lei Maria da Penha completa duas décadas. A legislação criou mecanismos para prevenir e combater a violência doméstica e familiar contra as mulheres e estabeleceu medidas de proteção para as vítimas.
Dados da Rede de Observatórios da Segurança mostram a dimensão do problema. Em 2025, nos nove estados analisados pela organização, uma média de 12 mulheres por dia foi vítima de algum tipo de violência.
A violência pode assumir diferentes formas, incluindo agressões físicas, psicológicas, sexuais, patrimoniais e morais. Em situações extremas, pode resultar em feminicídio.
Os hospitais universitários vinculados à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) mantêm serviços voltados ao atendimento de mulheres em situação de violência.
No Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG), as vítimas de violência sexual podem procurar o Serviço de Atenção Integral à Pessoa em Situação de Violência Sexual. O atendimento é gratuito e realizado por uma equipe multiprofissional.
Entre os profissionais envolvidos estão ginecologistas, psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais. A assistência social também pode atuar na avaliação de riscos, orientação sobre direitos e encaminhamento para a rede de proteção.
O serviço funciona em regime de porta aberta, sem necessidade de agendamento prévio. A orientação é procurar atendimento o quanto antes, já que algumas medidas de prevenção e coleta de evidências dependem do tempo transcorrido desde a violência.
O acompanhamento pode continuar por meses, inclusive para monitorar a saúde física e emocional da paciente e identificar possíveis consequências relacionadas ao trauma.
Além da assistência emergencial, existem iniciativas voltadas a mulheres que enfrentam outras formas de violência.
Um exemplo é o programa Para Elas, Por Elas, Por Eles, Por Nós, desenvolvido pela Faculdade de Medicina da UFMG. A iniciativa oferece atendimento médico e multiprofissional, além de atividades coletivas, oficinas e ações voltadas à autonomia e à geração de renda.
Segundo profissionais envolvidos no projeto, muitas mulheres chegam aos serviços com dificuldade para falar sobre o que vivenciaram. Em alguns casos, elas próprias demoram a identificar determinadas situações como formas de violência.
Esse comportamento pode estar relacionado ao chamado ciclo da violência, que pode envolver períodos de tensão, episódios de agressão e momentos posteriores de aparente arrependimento ou reconciliação.
Para especialistas, oferecer um ambiente seguro e sem julgamentos é fundamental para que a mulher consiga compreender a situação vivenciada e buscar ajuda.
Os efeitos da violência contra a mulher podem ultrapassar as consequências físicas. A experiência pode afetar a saúde mental, a vida sexual e reprodutiva, os relacionamentos familiares, a situação econômica e a segurança da vítima.
No Hospital Universitário Dr. Miguel Riet Corrêa Jr., da Universidade Federal do Rio Grande (HU-Furg), mulheres vítimas de violência sexual também podem receber atendimento multiprofissional em sistema de porta aberta.
A proposta é integrar diferentes áreas do cuidado para evitar que a vítima precise repetir diversas vezes o relato da violência a diferentes profissionais. A estratégia busca reduzir o risco de revitimização e tornar o atendimento mais acolhedor.
Mulheres que sofrem violência têm direitos assegurados por diferentes normas brasileiras. Entre as garantias estão atendimento de emergência pelo Sistema Único de Saúde (SUS), acompanhamento psicológico e social e acesso à Profilaxia Pós-Exposição (PEP), quando indicada.
Também existem situações previstas em lei para interrupção legal da gravidez decorrente de violência sexual.
A vítima não precisa apresentar boletim de ocorrência para receber atendimento de saúde. O serviço deve preservar a privacidade e o sigilo das informações, além de adotar medidas para evitar a revitimização.
Também podem ser buscados serviços de assistência jurídica e medidas protetivas contra o agressor.
Embora o registro de ocorrência não seja uma condição para o atendimento hospitalar, profissionais podem orientar a vítima sobre os canais disponíveis para denúncia e proteção, conforme as circunstâncias de cada caso.
A experiência de mulheres que passaram por situações de violência reforça a importância do acolhimento oferecido pelos serviços de saúde.
Em um dos casos acompanhados pelo HC-UFMG, a vítima levou meses até conseguir procurar atendimento. Além do trauma, ela enfrentava naquele período a responsabilidade de acompanhar a mãe durante um tratamento contra o câncer.
Posteriormente, após a violência, ela descobriu uma gravidez e decidiu pela interrupção legal da gestação. Mesmo sem ter registrado boletim de ocorrência, conseguiu receber atendimento dentro das possibilidades previstas pela legislação.
A experiência também mostra que a busca por assistência pode ocorrer mesmo quando a vítima não consegue denunciar imediatamente.
Para mulheres que enfrentam situações semelhantes, profissionais reforçam que procurar atendimento é uma forma de acessar proteção, orientação e cuidados de saúde.
O Agosto Lilás, especialmente em um ano marcado pelos 20 anos da Lei Maria da Penha, reforça a necessidade de ampliar a informação sobre os direitos das mulheres e fortalecer a rede de atendimento para que nenhuma vítima fique sem apoio.
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