Para entender o papel do executivo Marcelo Murad no escândalo financeiro que resvala na sucessão capixaba, é preciso começar pela crise que levou a Apex Partners à recuperação judicial. A empresa capixaba cresceu reunindo negócios de investimentos, crédito e imóveis. Depois, passou a enfrentar uma crise financeira associada, entre outros pontos, a operações com ações da CVC e a compromissos assumidos com investidores.
A situação ganhou o apelido de “Master capixaba” na cobertura do mercado, por uma referência à dimensão do caso, não uma conclusão de que os dois episódios sejam iguais, até o momento.
O episódio resvala na política do Estado, porque o filho do governador Ricardo Ferraço, assim como o filho do antecessor Renato Casagrande, também eram executivos da Apex.
Diante da complexidade, a compreensão da crise passa por uma pequena cronologia. Devido a contatilização de um rombo estimado em quase R$ 1 bilhão, no dia 14 de setembro a Apex apresentou um pedido de recuperação judicial para 148 sociedades.
As obrigações financeiras informadas pela empresa somavam R$ 985,6 milhões em junho. A Folha de São Paulo relatou os valores e a justificativa apresentada pela companhia para o pedido.
A disputa sobre quem levou a Apex a esse ponto já está na Justiça. A companhia acusa o ex-presidente Fernando Cinelli de irregularidades e atribui a ele decisões que agravaram a situação financeira.
Cinelli nega as acusações e diz que as decisões não eram tomadas por ele sozinho. Enquanto essa disputa segue, milhares de pessoas precisam entender o que acontecerá com os investimentos ligados ao grupo.
É nesse momento que Marcelo Murad assume protagonismo. Ele é um executivo da própria Apex, não um administrador externo chamado para reorganizar uma empresa desconhecida. Antes de ocupar interinamente a presidência, atuava na área de imóveis. Em publicação feita pela Apex em 2022, Murad já aparecia como diretor de mercado imobiliário.
Essa trajetória importa porque o pedido de recuperação inclui sociedades ligadas a projetos imobiliários. Quem investiu em um empreendimento determinado tem o direito de saber o que pertence àquele projeto, quais são suas dívidas e se seus recursos podem ser afetados pelas obrigações de outras empresas do grupo. Murad, que conhecia essa área antes de chegar à presidência, é um dos dirigentes em condições de explicar como essas sociedades foram selecionadas.
Há também uma contestação sobre a forma como o pedido foi preparado. Segundo reportagem do UOL, Cinelli alegou à Justiça que os sócios não foram consultados adequadamente. Sua defesa afirmou ainda que faltavam documentos societários de 123 das 148 empresas incluídas no processo e questionou a presença de veículos com recursos de terceiros. São alegações de uma das partes, ainda dependentes de avaliação judicial. A Apex sustenta que a recuperação busca preservar seus ativos e manter as atividades.
Nada disso autoriza dizer que Murad causou a crise, obteve vantagem pessoal ou decidiu sozinho incluir as sociedades imobiliárias na recuperação. Mas sua posição anterior e o cargo que ocupa agora exigem respostas precisas. Qual era sua responsabilidade sobre cada projeto? Quais sociedades tinham investidores próprios? Quem autorizou sua inclusão no pedido? Que documentos demonstram as dívidas e as garantias de cada uma?
A recuperação judicial pode dar à Apex tempo para negociar com credores. Para os investidores, tempo sem informação é outra forma de incerteza. Murad conhece a empresa por dentro e hoje ocupa sua presidência interina. É hora de explicar, empreendimento por empreendimento, o que entrou na recuperação e por quê.
O espaço desta coluna permanece aberto para manifestação de Marcelo Murad e da Apex Partners.
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