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Lorenzo Pazolini cruza o Rubicão ao abraçar candidatura de Flávio Bolsonaro

Apoio aproxima o ex-prefeito do PL e fortalece seu palanque à direita, mas pode transferir para a disputa capixaba a elevada rejeição nacional enfrentada pelo senador

Roberto Barbosa Por Roberto Barbosa
13/07/2026 - 18:58
em Política
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Eleição ES 2026: PAZOLINI CRUZA O RUBICÃO AO ABRAÇAR FLÁVIO BOLSONARO/

Fotomontagem: Agência Fonte Exclusiva.

Na política, nem toda isca capaz de atrair votos vem sem anzol. Ao declarar apoio à pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, o ex-prefeito de Vitória e pré-candidato ao governo do Espírito Santo, Lorenzo Pazolini, fez uma escolha que pode ampliar seu espaço na direita capixaba, mas também elevar o risco de sua candidatura.

A manifestação ocorreu durante entrevista concedida à Auriverde Brasil, emissora identificada com o campo conservador. Foi a primeira vez que Pazolini declarou publicamente apoio a um nome na disputa presidencial. A entrevista foi articulada com a participação do senador Magno Malta, presidente estadual do PL e principal fiador de uma eventual aliança entre as duas legendas no Espírito Santo.

A declaração não foi apenas uma manifestação ideológica. Trata-se de um gesto dirigido ao PL e ao eleitorado bolsonarista, fundamental para os planos de Pazolini de chegar ao Palácio Anchieta. Em troca do apoio presidencial, o Republicanos espera receber a estrutura política, o tempo de televisão e a militância do partido de Jair e Flávio Bolsonaro no Estado.

O problema é que Pazolini assumiu esse compromisso justamente quando o seu próprio partido demonstra cautela em relação à candidatura de Flávio.

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Uma aposta que contraria o próprio partido

O Republicanos nacional negou ter fechado acordo com o senador e informou que a tendência é de neutralidade na eleição presidencial. Segundo dirigentes da legenda, uma sondagem interna teria identificado frustração de parte de suas bases com a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. O partido também deixou claro que qualquer definição dependerá de novas consultas aos diretórios estaduais.

Movimento semelhante ocorre na federação formada por União Brasil e PP. As duas legendas chegaram a sinalizar aproximação com Flávio, mas passaram a discutir a possibilidade de neutralidade nacional, permitindo que os diretórios estaduais construam alianças próprias. Portanto, não se pode afirmar que União e PP já tenham abandonado definitivamente o senador, mas o apoio que parecia encaminhado deixou de ser automático.

Pazolini, assim, colocou-se mais próximo de Flávio Bolsonaro do que o próprio comando nacional do Republicanos. Sua decisão atende às circunstâncias do Espírito Santo, mas o associa diretamente a uma candidatura presidencial ainda cercada por dúvidas sobre capacidade de crescimento, rejeição e unidade partidária.

É possível compreender a lógica eleitoral do movimento. O apoio de Magno Malta pode evitar uma candidatura própria do PL ao governo estadual, reduzir a concorrência dentro da direita e entregar a Pazolini um palanque conservador praticamente unificado.

Mas essa vantagem também cobra um preço: o ex-prefeito deixa de ser apenas um candidato de direita com perfil administrativo e passa a carregar, em maior intensidade, as virtudes e os problemas da marca Bolsonaro.

O bolsonarismo ainda é forte no Espírito Santo

Seria precipitado afirmar que o bolsonarismo perdeu sua força no Espírito Santo. As pesquisas mostram que o movimento continua competitivo no Estado.

Em levantamento da Real Time Big Data realizado em junho, Flávio Bolsonaro apareceu com 48% das intenções de voto contra 43% de Lula em um eventual segundo turno entre os eleitores capixabas. Na mesma pesquisa, Lula tinha rejeição de 52%, enquanto Flávio era rejeitado por 48%.

A Quaest também havia registrado, em abril, empate técnico entre os dois no primeiro turno: Flávio tinha 33% e Lula, 29%, considerando uma margem de erro de três pontos percentuais.

Os números mostram que, no Espírito Santo, declarar apoio a Flávio não é necessariamente uma decisão eleitoralmente irracional. O senador possui uma base consolidada, enquanto o sentimento antipetista continua relevante entre os capixabas.

A questão, entretanto, não está apenas na capacidade de mobilizar o eleitor bolsonarista. Pazolini precisa conquistar também os eleitores de centro, os independentes, os conservadores moderados e aqueles que se identificam com a direita, mas não aceitam integralmente o estilo e o radicalismo associados ao bolsonarismo.

A própria Quaest identificou no Espírito Santo a existência de um segmento que se declara de direita, mas não se considera bolsonarista. Pazolini e Magno Malta possuem penetração nesse grupo, embora enfrentem graus diferentes de rejeição.

Esse eleitorado pode decidir uma eleição estadual equilibrada.

O risco de importar a rejeição nacional

No cenário nacional, a situação é mais desfavorável para Flávio Bolsonaro. A pesquisa Quaest apontou que 56% dos entrevistados conheciam o senador e afirmavam que não votariam nele.

Lula aparecia com 53% nesse indicador. No Datafolha de junho, Flávio tinha rejeição de 48%, contra 46% do presidente. Os números variam conforme a metodologia dos institutos, mas revelam que os dois principais concorrentes enfrentam resistência elevada.

Nas intenções de voto, pesquisas nacionais recentes colocaram Lula à frente. O AtlasIntel/Bloomberg registrou 48,8% para o presidente e 42,3% para Flávio em uma simulação de segundo turno. No primeiro turno, os percentuais eram de 46,3% contra 36,6%.

O Datafolha também mostrou vantagem de Lula: 47% contra 43% no segundo turno e 41% contra 31% no cenário mais provável de primeiro turno.

Isso não significa que a candidatura de Flávio esteja inviabilizada. A eleição permanece aberta, as campanhas oficiais ainda podem alterar o cenário e o eleitorado brasileiro apresenta alto grau de volatilidade. Entretanto, os levantamentos demonstram que o senador precisa reduzir sua rejeição e ampliar o apoio fora da base tradicional do bolsonarismo.

Além das pesquisas, Flávio enfrenta dificuldades para preservar a unidade da própria família política. O conflito público com Michelle Bolsonaro atingiu especialmente uma área sensível de sua candidatura: o eleitorado feminino e evangélico.

Michelle deixou o comando do PL Mulher após acusar o enteado de desrespeitá-la e afastá-la das decisões partidárias. Pesquisa BTG Pactual/Nexus citada pela Reuters mostrou Lula com vantagem de 18 pontos sobre Flávio entre as mulheres, enquanto o senador liderava entre os homens.

Para Pazolini, o risco é permitir que essas disputas nacionais contaminem uma candidatura estadual que, até agora, apresentava índices relativamente baixos de rejeição.

Na pesquisa Quaest realizada no Espírito Santo entre 25 e 28 de abril, Pazolini tinha rejeição de 23%, a menor entre os principais nomes testados. Magno Malta, por sua vez, alcançava 46%, o maior índice do levantamento.

Essa diferença ajuda a explicar por que Pazolini procura o apoio de Magno sem desejar assumir completamente sua imagem política. O ex-prefeito pretende receber os votos, a estrutura e o entusiasmo da militância bolsonarista, preservando ao mesmo tempo um perfil mais moderado.

O problema é que essa separação se torna mais difícil depois de uma declaração pública de apoio presidencial.

Pazolini não está sozinho na disputa pelo centro

Existe ainda outro elemento que aumenta o risco da escolha feita por Lorenzo Pazolini. O eleitor conservador moderado, independente ou insatisfeito com o radicalismo bolsonarista não está necessariamente disponível apenas para o ex-prefeito de Vitória.

Esse segmento também é disputado pelo grupo político liderado pelo ex-governador Renato Casagrande, principal fiador da candidatura do atual governador Ricardo Ferraço. Com elevada aprovação ao deixar o Palácio Anchieta, Casagrande conserva capacidade de influência para além do eleitorado tradicional da centro-esquerda.

Ao longo de seus governos, ele construiu uma imagem associada à estabilidade administrativa, ao equilíbrio fiscal, ao diálogo institucional e à formação de alianças amplas. Esse capital político pode ajudar Ferraço a alcançar não apenas eleitores de centro, mas também uma parcela da direita não bolsonarista e dos antigos apoiadores de Jair Bolsonaro que continuam conservadores, porém rejeitam conflitos permanentes e manifestações consideradas radicais.

É possível, inclusive, que o grupo governista tenha maior capacidade de atração sobre esse eleitorado moderado do que Pazolini. Não porque Ferraço seja identificado com o bolsonarismo, mas justamente porque sua candidatura pode ser apresentada como uma alternativa de continuidade administrativa sem adesão automática aos extremos da polarização nacional.

Pesquisas ainda são imprecisas

As pesquisas ainda não permitem medir com precisão quantos eleitores se encontram nessa faixa intermediária. Os levantamentos, contudo, mostram Ferraço e Pazolini disputando diretamente a liderança, com vantagem alternada conforme o instituto e o cenário apresentado. Isso indica que a eleição capixaba poderá ser definida menos pelos eleitores já fidelizados e mais por aqueles que transitam entre a direita moderada, o centro político e o campo governista.

Pazolini vinha tentando ocupar esse espaço intermediário: conservador, próximo dos segmentos religiosos e identificado com a direita, mas sem reproduzir integralmente o tom mais radical do bolsonarismo nacional.

Ao declarar apoio a Flávio Bolsonaro, ele diminui essa margem de ambiguidade. Passa a disputar o eleitorado moderado carregando uma vinculação nacional mais explícita, enquanto Ferraço poderá explorar o legado administrativo de Casagrande e apresentar-se como opção menos sujeita às turbulências do bolsonarismo.

Essa talvez seja a consequência mais relevante da decisão. Pazolini pode consolidar os votos mais ideológicos da direita, mas, ao mesmo tempo, facilitar a aproximação entre Ferraço e os conservadores que desejam distância tanto do PT quanto do radicalismo bolsonarista.

Foi o seu Rubicão.

A aliança com Flávio Bolsonaro pode oferecer a Pazolini a militância e a estrutura necessárias para atravessar o primeiro turno. Resta saber se não entregará a Ricardo Ferraço justamente o eleitor moderado que poderá decidir o segundo.

A decisão pode produzir dividendos imediatos. Pazolini ganha aproximação com o PL, reduz o espaço para uma candidatura concorrente de Magno Malta e fortalece sua presença entre os eleitores mais conservadores. Em uma disputa fragmentada, esse apoio pode ser decisivo para garantir uma vaga no segundo turno.

Por outro lado, a associação poderá dificultar o avanço sobre o centro político e sobre os eleitores independentes, especialmente se a candidatura de Flávio continuar enfrentando elevada rejeição, conflitos familiares e dificuldades para formar uma aliança nacional ampla.

Pazolini não cometeu necessariamente um suicídio eleitoral, tampouco realizou uma jogada sem riscos. Fez uma aposta de alta volatilidade.

A aliança pode oferecer a ele o exército necessário para atravessar o primeiro turno. Resta saber se não lhe retirará as pontes necessárias para vencer o segundo.

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