Um cortejo marcado pela força dos tambores, pela ancestralidade e pela resistência das mulheres negras tomou conta das ruas do bairro do Bixiga, na região central de São Paulo, na noite da última terça-feira (13). Liderado pelo Ilú Obá de Min, o ato cultural e político percorreu a Rua 13 de Maio e a tradicional Escadaria do Bixiga em defesa da memória negra e em crítica ao que o movimento define como “falsa abolição” da escravatura no Brasil.
Realizada anualmente desde 2006, a manifestação acontece na mesma data em que é celebrada a assinatura da Lei Áurea, em 1888, documento que extinguiu oficialmente a escravidão no país. Para as integrantes do movimento, no entanto, a abolição não representou liberdade plena para a população negra, sobretudo para as mulheres.
Durante o cortejo, participantes espalharam água de cheiro pelas ruas enquanto entoavam cantos e faziam ecoar os sons dos tambores. O ato simbólico representa, segundo o coletivo, a limpeza das marcas deixadas pela escravidão e o fortalecimento das raízes africanas na cidade.
A presidenta, diretora artística e regente do bloco, Beth Beli, afirmou que a lavagem do Bixiga tem como objetivo valorizar as narrativas das mulheres negras e resgatar histórias frequentemente invisibilizadas.
“Esse ato tem a ver com iluminar as nossas histórias e iluminar as mulheres negras”, declarou.
Beth destacou ainda a importância dos tambores como instrumento ancestral de comunicação e resistência cultural.
“Se a gente tem alguma arma, a arma é o nosso tambor”, afirmou.
A escolha do Bixiga como cenário da manifestação também carrega forte simbolismo histórico. Apesar de o bairro ser popularmente associado à imigração italiana e às tradicionais cantinas, o local foi um importante território negro paulistano. A região abrigou o antigo Quilombo Saracura e teve papel fundamental no surgimento do samba em São Paulo.
No início do século 20, a área chegou a ser conhecida como “Pequena África”.
“Isso também é para lembrar que esse bairro nunca foi italiano, ele sempre foi dos povos africanos. Depois vieram os projetos de branqueamento do Brasil”, ressaltou Beth Beli.
Antes do início do cortejo, integrantes do bloco distribuíram e leram um manifesto destacando o protagonismo histórico das mulheres negras nas lutas sociais e na resistência contra diferentes formas de opressão.
O texto ressalta que as mulheres negras sempre estiveram na linha de frente das mobilizações populares e denuncia estruturas como racismo, machismo, misoginia, capacitismo e LGBTQIAP+fobia.
Após a leitura, o grupo seguiu pelas ruas do bairro em uma caminhada marcada pelo batuque, pela dança e por homenagens às ancestralidades africanas.
Segundo as organizadoras, o gesto de lavar as ruas reforça a permanência da presença negra no território e combate o apagamento histórico vivido pela população afro-brasileira.
“Essa é a lavagem da rua da mentira, porque entendemos que o que ocorreu foi uma falsa abolição. A narrativa aqui é contada pela voz das mulheres negras”, afirmou uma das integrantes do movimento durante o ato.
A tradição da lavagem do Bixiga começou com o coletivo Ori Axé e atualmente é conduzida pelo Ilú Obá de Min, considerado um dos principais blocos afro femininos do país. Fundado pelas percussionistas Adriana Aragão, Girlei Miranda e Beth Beli, o grupo reúne cerca de 420 integrantes entre bateria e corpo de dança.
Em 2024, o bloco completou 20 anos de trajetória e mantém a tradição de abrir oficialmente as celebrações do carnaval de rua da capital paulista.
“A lavagem é um feitiço para limpar a gente dessas mazelas. A escravidão deixou uma herança muito cruel para as pessoas pretas. Quando lavamos com água de cheiro, lembramos de onde viemos e das nossas origens”, concluiu Beth Beli.
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