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Escolas de samba e democracia: pesquisa revela resistência política durante a ditadura

Estudo da Unicamp mostra como enredos dos anos 1980 denunciaram repressão, racismo e desigualdades no Brasil.

redação Por redação
08/02/2026 - 10:41
em Cultura
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Pesquisa acadêmica destaca o papel das escolas de samba como expressão política na luta pela democracia durante o fim da ditadura militar, revelando episódios de censura, racismo e resistência cultural.

Imagem:Gilberto Costa/Agência Brasil

O avanço da democracia brasileira ao longo do século 20 ocorreu de forma irregular, marcado por períodos de repressão e retomadas de direitos. Nesse cenário, as escolas de samba do Rio de Janeiro também enfrentaram vigilância, censura e até prisões impostas por forças do Estado — realidade agravada pelo racismo direcionado às comunidades negras que historicamente constroem o carnaval.

Essa trajetória de resistência é tema da pesquisa do sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino, que defende a tese de doutorado Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O estudo analisa os enredos das escolas do Grupo Especial na década de 1980, período que marcou o fim da ditadura militar (1964-1985). A pesquisa percorre desde a campanha pelas Diretas Já, em 1984, até a eleição de Fernando Collor, em 1989. O trabalho também inspirou o documentário Enredos da Liberdade, disponível em streaming.

Paraíso do Tuiuti desfila no terceiro dia de carnaval do grupo Especial na Marquês de Sapucaí, na região central do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Além da carreira acadêmica, Reduzino atua na Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro e no Departamento Cultural da Mangueira. Em entrevista à Agência Brasil, ele ressaltou que o samba-enredo deve ser entendido como um discurso político coletivo, construído ao longo de meses dentro das comunidades.

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Segundo o pesquisador, a ideia de que apenas nomes da Música Popular Brasileira (MPB) resistiram à ditadura contribui para invisibilizar a atuação das escolas de samba. Para ele, esse apagamento está ligado a uma estrutura social marcada pelo racismo, que historicamente tenta silenciar a produção intelectual e cultural negra.

Reduzino destaca que, quando uma escola levava críticas à tortura ou clamava por liberdade durante o regime militar, havia um processo político profundo por trás do desfile — muito além do espetáculo apresentado na avenida.

O sociólogo também aponta que a repressão estatal atingia de forma mais intensa as camadas populares, especialmente a população negra e periférica. O samba, como expressão dessa cultura, acabou frequentemente associado à criminalidade, reforçando estigmas históricos.

Um exemplo citado é o antigo Código de Vadiagem, que permitia conduzir à delegacia pessoas sem carteira de trabalho — prática que, na avaliação do pesquisador, atingia de forma desproporcional homens negros com instrumentos musicais.

Outro ponto abordado é a relação entre escolas de samba e banqueiros do jogo do bicho. Embora essa aproximação tenha ganhado visibilidade durante a ditadura, Reduzino argumenta que os chamados mecenas também circulavam em espaços de poder e dialogavam com autoridades públicas.

Para ele, responsabilizar apenas as agremiações reforça um estigma e ignora conexões mais amplas entre contravenção e setores influentes da sociedade.

A pesquisa ainda questiona o mito da “democracia racial”, conceito difundido por parte da elite intelectual brasileira. Na avaliação do sociólogo, negar as desigualdades raciais é uma forma de violência simbólica que desconsidera dados sobre mortes de jovens negros e outras desigualdades estruturais.

Embora o tema da harmonia racial tenha sido exaltado em alguns sambas, arquivos do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) mostram que intelectuais e ativistas que discutiam relações raciais foram monitorados — assim como movimentos culturais ligados à valorização da cultura negra.

Reduzino também rebate a crítica de que as escolas teriam contribuído para uma visão alienada da história ao adotar narrativas oficiais. Para ele, essa memória foi construída por instituições e elites acadêmicas, e rotular o samba como alienado seria uma forma de diminuir sua produção cultural.

O pesquisador lembra que, na década de 1970, apenas quatro enredos — entre cerca de 140 analisados — exaltaram o nacionalismo do período militar, todos ligados a apenas três escolas. O dado, segundo ele, contraria a ideia de que o carnaval teria aderido ao regime.

Mais do que entretenimento, a pesquisa reforça o papel das escolas de samba como espaços de mobilização social e política, capazes de ecoar demandas por liberdade e justiça em um dos períodos mais delicados da história brasileira.

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Tags: #Cultura#CulturaBrasileira#DitaduraMilitar#EscolasDeSamba#História#PesquisaBrasileira#Resistência#RiodeJaneiro#sambenredo
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