O uso inadequado de medicamentos segue sendo uma das principais preocupações da saúde pública brasileira. Atitudes consideradas comuns por muitos pacientes, como interromper tratamentos por conta própria, tomar remédios fora do horário correto, utilizar medicamentos vencidos ou recorrer à automedicação, podem provocar consequências graves e até fatais.
Especialistas da HU Brasil, rede de hospitais universitários federais vinculada ao Ministério da Educação (MEC), alertam para os impactos dessas práticas tanto na saúde da população quanto no funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS).
Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico (ICTQ), realizada em 2022, revelou que nove em cada dez brasileiros praticam automedicação. Outro levantamento publicado no International Journal of Advanced Engineering Research and Science apontou que, entre 2012 e 2021, mais de 596 mil casos de intoxicação por medicamentos foram registrados no país.
Para Vicente Dantas, chefe do Setor de Farmácia Hospitalar do Hospital Universitário de Lagarto, da Universidade Federal de Sergipe (HUL-UFS), ainda existe uma falsa percepção de segurança em relação aos remédios.
“Muitas pessoas acreditam que, por ser um medicamento, ele não oferece riscos. Esse é um mito perigoso. Quando utilizados sem orientação adequada, os remédios podem colocar vidas em risco”, destacou.
Consequências podem ser graves
Os especialistas explicam que o uso incorreto de medicamentos pode provocar intoxicações, mascarar doenças graves, causar dependência química e gerar danos em órgãos vitais, como rins e fígado.
Segundo Juliano Pereira, chefe do Setor de Farmácia Hospitalar do Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Norte do Tocantins (HDT-UFNT), outro problema frequente envolve as interações medicamentosas, principalmente entre idosos.
“Muitos pacientes utilizam vários medicamentos ao mesmo tempo, prática conhecida como polifarmácia. Isso aumenta significativamente o risco de reações adversas e complicações”, explicou.
A chefe do Setor de Farmácia Hospitalar do Hospital Universitário Professor Polydoro Ernani de São Thiago, da Universidade Federal de Santa Catarina (HU-UFSC), Paula Wolff, reforça que o uso racional de medicamentos é essencial para garantir segurança e eficácia nos tratamentos.
“O paciente deve receber o medicamento adequado à sua condição clínica, na dose correta e pelo tempo necessário, garantindo eficácia terapêutica e segurança”, afirmou.
Uso incorreto de antibióticos preocupa hospitais
Entre os problemas mais graves está o uso inadequado de antibióticos. A interrupção precoce dos tratamentos ou o uso sem prescrição médica favorece o surgimento das chamadas “superbactérias”, resistentes aos medicamentos disponíveis.
Especialistas alertam que esse cenário dificulta tratamentos hospitalares, aumenta o tempo de internação e eleva os índices de mortalidade.
“Na prática hospitalar, isso significa infecções mais difíceis de tratar, necessidade de antibióticos mais fortes, tóxicos e caros, além do aumento no número de mortes”, explicou Vicente Dantas.
A resistência bacteriana já é considerada uma das maiores ameaças globais pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Segundo Juliano Pereira, atualmente mais de 1,2 milhão de mortes por ano no mundo estão relacionadas à resistência bacteriana. A estimativa é que, caso o problema continue avançando, o número possa ultrapassar 10 milhões de mortes anuais até 2050.
Hospitais investem em prevenção e tecnologia
Criado pela OMS em 1985, o conceito de “Uso Racional de Medicamentos” vem sendo adotado em hospitais universitários da HU Brasil por meio de ações educativas, protocolos clínicos e ferramentas tecnológicas.
No HU-UFSC, campanhas internas orientam profissionais, pacientes e acompanhantes sobre o uso seguro de medicamentos. O hospital também utiliza o sistema de inteligência artificial Noharm, capaz de analisar exames, prescrições e dados clínicos em tempo real para identificar riscos relacionados a medicamentos.
Já no HUL-UFS, farmacêuticos participam diretamente das visitas clínicas aos pacientes internados, auxiliando no controle de reações adversas e no uso correto de antimicrobianos.
“A farmácia hospitalar deixou de ser apenas logística. Hoje ela também é clínica, educativa e estratégica”, destacou Vicente Dantas.
O hospital ainda desenvolve pesquisas voltadas à melhoria de prescrições médicas, fortalecimento da farmacovigilância e segurança em terapias hormonais no Ambulatório Transexualizador.
No HDT-UFNT, todas as prescrições médicas passam por triagem farmacêutica antes da administração dos medicamentos. A unidade também realiza conciliação medicamentosa para evitar duplicidade de remédios e minimizar riscos de alergias e interações medicamentosas.
Economia para o SUS
Além dos benefícios diretos à saúde da população, especialistas destacam que o uso racional de medicamentos também reduz custos para o SUS.
Segundo Juliano Pereira, a prática ajuda a diminuir internações prolongadas, reduz complicações clínicas e contribui para desafogar filas de atendimento na rede pública.
“Quando os medicamentos são utilizados corretamente, há economia de recursos e melhora da eficiência do sistema de saúde”, concluiu.
Sobre a HU Brasil
Criada pela Lei nº 12.550/2011, a HU Brasil — antigo nome da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) — é vinculada ao Ministério da Educação e administra 45 hospitais universitários federais em 25 estados brasileiros.
Em 2026, a instituição passou por um reposicionamento institucional e adotou o nome HU Brasil, reforçando sua atuação na assistência, ensino, pesquisa e inovação em saúde pública.
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