A cobertura vacinal infantil registrou avanços em 2025, mas ainda está longe de alcançar todas as crianças. Dados divulgados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), com base em informações fornecidas por governos de 195 países, mostram que cerca de 15% dos bebês no mundo não completaram o esquema básico de imunização durante o primeiro ano de vida.
O levantamento, elaborado em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), aponta que 13,5 milhões de crianças não receberam sequer uma dose de vacina no primeiro ano de vida, sendo classificadas como “crianças zero-dose”. Outras 7,3 milhões iniciaram a vacinação, mas não completaram o ciclo básico de três doses da vacina contra difteria, tétano e coqueluche (DTP).
Apesar do cenário preocupante, os números indicam melhora em relação ao ano anterior. Em 2025, aproximadamente 116 milhões de bebês receberam ao menos uma dose da vacina DTP, representando um aumento de 750 mil crianças imunizadas na comparação com 2024.
Mesmo assim, o Unicef alerta que a quantidade de crianças completamente desprotegidas permanece elevada e próxima dos níveis registrados em 2009. O índice ainda está abaixo dos resultados observados antes da pandemia de Covid-19, mantendo o risco de novos surtos de doenças evitáveis.
Outro ponto de atenção é a vacinação contra o sarampo. Segundo o relatório, 84% das crianças receberam a primeira dose da vacina (MCV1), enquanto apenas 77% completaram a segunda aplicação (MCV2). A OMS considera que a cobertura mínima de segurança deve atingir 95% da população.
O impacto dessa baixa cobertura já pode ser observado. Em 2025, mais de 411 mil casos de sarampo foram registrados em surtos que atingiram 57 países.
A análise mostra que 100 dos 195 países conseguiram manter cobertura igual ou superior a 90% para as três doses da vacina DTP desde 2019. Entretanto, a expansão desse grupo ainda ocorre lentamente.
Entre os países que apresentavam índices inferiores a esse patamar em 2019, apenas 30 conseguiram ampliar significativamente a cobertura nos últimos seis anos. Outros 65 permaneceram estagnados ou registraram queda, incluindo 13 nações afetadas por conflitos, crises humanitárias ou extrema vulnerabilidade.
Segundo a diretora executiva do Unicef, Catherine Russell, a recuperação das taxas globais após a pandemia demonstra o esforço conjunto de governos e profissionais da saúde, mas milhões de crianças continuam sem proteção devido a guerras, deslocamentos forçados, pobreza e dificuldades de acesso aos serviços de saúde.
O relatório destaca ainda que mais da metade das crianças zero-dose vive em países marcados por conflitos ou instabilidade política, embora essas regiões concentrem apenas cerca de um terço da população infantil mundial. Nesses locais, programas de imunização enfrentam problemas como insegurança, falta de recursos financeiros e dificuldades logísticas.
Além dos desafios enfrentados por países em crise, a pesquisa chama atenção para a redução da cobertura vacinal em algumas nações de renda média e alta, impulsionada pela diminuição do compromisso político, problemas estruturais e aumento da hesitação vacinal.
Entre os exemplos citados estão a África do Sul, que registrou queda de 20 pontos percentuais na cobertura da primeira dose da DTP desde 2019, e a Bósnia e Herzegovina, que apresentou redução de 23 pontos percentuais no último ano.
Na contramão da tendência observada em alguns países, o Brasil segue ampliando a cobertura vacinal e reduzindo o número de crianças sem nenhuma dose de vacina.
Atualmente, a estimativa é de cerca de 50 mil crianças classificadas como zero-dose no país, resultado associado ao fortalecimento da cobertura e à melhoria na integração das bases de dados do sistema público de saúde.
Entre as principais vacinas infantis, apenas o esquema completo da tríplice bacteriana (DTP-3) permanece abaixo do ideal, com cobertura próxima de 86%.
O estudo, entretanto, faz uma ressalva em relação ao Brasil ao destacar que o país não realiza, há cinco anos, pesquisas nacionais independentes sobre cobertura vacinal, procedimento recomendado pela OMS e pelo Unicef para validar a qualidade das informações oficiais.
O levantamento também alerta que os programas de vacinação enfrentam dificuldades crescentes em razão da redução de recursos financeiros destinados à imunização, especialmente após cortes de financiamento promovidos pelo governo dos Estados Unidos, além do enfraquecimento dos sistemas nacionais de monitoramento.
Segundo o relatório, apenas 18 pesquisas nacionais de cobertura vacinal foram realizadas e enviadas neste ciclo de avaliação, número bastante inferior às 50 registradas em 2024 e à média anual de 33 levantamentos entre 2015 e 2019.
Para especialistas, manter os investimentos em vacinação será fundamental para ampliar a proteção das crianças e evitar o retorno de doenças que já poderiam estar controladas em diversas regiões do mundo.
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