A contaminação por mercúrio continua ameaçando a saúde de comunidades indígenas da Amazônia. Dados preliminares de uma pesquisa conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelam que mulheres grávidas da Terra Indígena Munduruku, localizada na região do Médio Tapajós, no Pará, apresentam concentrações do metal muito acima dos níveis considerados seguros pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O estudo identificou que as gestantes monitoradas possuem, em média, 9,1 microgramas de mercúrio por grama de cabelo (µg/g), índice que supera em mais de quatro vezes o limite máximo recomendado pela OMS, estabelecido em 2 µg/g.
Os resultados integram o Estudo Longitudinal de Gestantes e Recém-Nascidos Indígenas Expostos ao Mercúrio na Amazônia, desenvolvido por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz). Os dados foram apresentados nesta semana durante a Rio Nature & Climate Week, evento voltado para debates sobre clima e sustentabilidade realizado no Rio de Janeiro.
Entre as 195 mulheres acompanhadas pela pesquisa, 97% apresentaram níveis de mercúrio acima do considerado seguro. Em um dos casos mais graves registrados, uma gestante apresentou concentração de 39,9 µg/g, valor quase 20 vezes superior ao recomendado.
Bebês já nascem contaminados
A pesquisa também acompanha os filhos das mulheres participantes. Das 195 gestantes analisadas, 134 já deram à luz, permitindo que os pesquisadores monitorassem os impactos da exposição ao mercúrio desde o nascimento.
Os dados mostram que cerca de 90% dos recém-nascidos apresentam contaminação ainda durante a gestação, já que o metal atravessa a placenta e chega ao organismo do bebê.
A concentração média encontrada entre os recém-nascidos foi de 5,8 µg/g, quase três vezes acima do limite seguro. Em um caso extremo, um bebê apresentou 30,8 µg/g, índice equivalente a mais de 15 vezes o valor recomendado.
Segundo o coordenador da pesquisa, Paulo Basta, os cientistas acompanham o desenvolvimento dessas crianças ao longo dos primeiros anos de vida para avaliar possíveis impactos neurológicos e cognitivos.
De acordo com o pesquisador, a exposição ao mercúrio durante a gravidez pode comprometer marcos importantes do neurodesenvolvimento infantil, afetando crescimento, aprendizagem e funções motoras.
O mercúrio é considerado uma neurotoxina poderosa e pode provocar danos permanentes ao sistema nervoso central. Especialistas alertam que lesões neurológicas causadas pelo metal costumam ser irreversíveis.
Cresce preocupação com doenças neurológicas
Os pesquisadores relatam aumento de casos envolvendo síndromes raras, anomalias congênitas e doenças neurológicas ainda sem diagnóstico conclusivo entre crianças indígenas da região.
A gravidade do cenário também se reflete na demanda crescente por equipamentos de assistência. Segundo a pesquisa, o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Rio Tapajós foi uma das unidades que mais solicitaram cadeiras de rodas ao Ministério da Saúde nos últimos anos.
Apesar dos avanços no monitoramento, especialistas alertam para a falta de mecanismos oficiais de registro. Atualmente, o sistema de saúde brasileiro ainda não possui uma ficha específica para notificação de casos de intoxicação por mercúrio.
Mesmo diante dessa limitação, já foram contabilizados 751 casos confirmados de contaminação por mercúrio em indígenas com comprovação laboratorial. Desse total, 318 casos foram registrados no Pará e 378 em Roraima, especialmente entre comunidades Yanomami.
Comunidade relata medo e indignação
A liderança indígena Alessandra Korap Munduruku relembra o impacto causado pelos primeiros resultados divulgados em 2022, quando os moradores passaram a compreender a dimensão da contaminação presente em suas aldeias.
Segundo ela, muitas mulheres ficaram desesperadas ao descobrir a presença do metal no organismo durante a gestação e demonstraram preocupação com possíveis efeitos sobre os filhos.
A situação é agravada pela dependência alimentar das comunidades em relação aos peixes dos rios da região, principal fonte de proteína para os povos indígenas.
O mercúrio utilizado na atividade garimpeira contamina os cursos d’água e se acumula nos peixes, que acabam se tornando a principal via de exposição humana ao metal.
Garimpo está na origem da contaminação
A Terra Indígena Munduruku convive há décadas com a expansão do garimpo de ouro, atividade que utiliza mercúrio para separar o metal precioso dos sedimentos extraídos dos rios e do solo.
Dados do MapBiomas indicam que cerca de 92% das áreas de garimpo, legais ou ilegais, estão localizadas na Amazônia. A maior parte dessas operações é voltada para a extração de ouro.
Além da contaminação por mercúrio, o avanço da atividade está associado a desmatamento, conflitos fundiários, violência contra comunidades tradicionais, exploração de trabalhadores e prejuízos ambientais de larga escala.
Um estudo recente divulgado pelo Greenpeace aponta que permissões de lavra garimpeira têm sido utilizadas para facilitar a comercialização de ouro extraído ilegalmente em áreas protegidas da Amazônia, incluindo terras indígenas.
Especialistas também destacam falhas nos processos de licenciamento ambiental e na fiscalização das atividades minerárias, fatores que contribuem para o agravamento dos impactos sociais e ambientais.
Ministério Público aponta fragilidade na fiscalização
Para a promotora de Justiça Eliane Moreira, do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), a contaminação por mercúrio está diretamente relacionada à fragilidade dos mecanismos de controle e fiscalização.
Segundo ela, muitos municípios amazônicos possuem baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e carecem de estrutura institucional adequada para monitorar atividades potencialmente poluidoras.
A promotora ressalta que a atuação integrada dos órgãos públicos é fundamental para combater os danos provocados pelo garimpo e proteger as populações indígenas que vivem em áreas impactadas pela atividade.
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