Exportadores brasileiros passaram a enfrentar, nesta quarta-feira (22), uma nova barreira para vender produtos aos Estados Unidos. A tarifa adicional de 25% determinada pelo governo de Donald Trump começou a valer à 1h01, pelo horário de Brasília, e alcança uma parcela significativa das mercadorias enviadas pelo Brasil ao mercado norte-americano.
A cobrança entrou em vigor às 0h01 do horário da costa leste dos Estados Unidos. A tarifa será aplicada aos produtos destinados ao consumo ou retirados de armazéns alfandegados a partir desse horário. O percentual será acrescentado às alíquotas que já incidiam normalmente sobre cada mercadoria.
A decisão foi adotada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A regra geral estabelece a sobretaxa sobre importações brasileiras, mas o documento oficial apresenta uma extensa relação de produtos excluídos da medida.
Produtos industriais estão entre os mais atingidos
A nova tarifa afeta setores como máquinas e equipamentos agrícolas, etanol, calçados, roupas, móveis, produtos de madeira e outros artigos manufaturados.
Estimativas da Confederação Nacional da Indústria indicam que mais de 4 mil produtos estão sujeitos à cobrança. O impacto pode alcançar aproximadamente US$ 11 bilhões em exportações brasileiras. O governo federal trabalha com uma estimativa próxima de US$ 7 bilhões. Os valores representam entre 18% e 26% das vendas do Brasil para os Estados Unidos.
O setor calçadista aparece entre os mais vulneráveis. Os Estados Unidos compram cerca de um em cada cinco pares de calçados exportados pelo Brasil. Com o aumento dos custos, empresas do setor alertam para a possibilidade de redução da produção, cancelamento de encomendas e demissões.
A indústria brasileira de calçados já revisou sua projeção para 2026. A previsão passou de uma redução de 3,6% para uma queda de 7,1% nas exportações ao longo do ano. Em polos produtores, como Franca, no interior de São Paulo, empresários afirmam que a sobretaxa pode tornar parte das vendas economicamente inviável.
Café, carne e aeronaves ficaram de fora
Para reduzir os efeitos da medida sobre consumidores e empresas norte-americanas, os Estados Unidos estabeleceram exceções para produtos considerados estratégicos ou com pouca disponibilidade no mercado interno.
Entre os principais itens que ficaram fora da cobrança adicional estão café, carne bovina, laranja e suco de laranja, determinados produtos energéticos, minerais estratégicos, aeronaves civis e componentes utilizados pela indústria aeronáutica.
Segundo o documento do USTR, as exceções incluem matérias-primas cuja tributação poderia provocar desabastecimento, produtos capazes de gerar impactos amplos na economia americana e mercadorias que não podem ser produzidas em quantidade suficiente nos Estados Unidos.
Governo americano aponta práticas comerciais
A decisão é resultado de uma investigação iniciada em julho de 2025. O governo dos Estados Unidos acusa o Brasil de adotar práticas consideradas prejudiciais aos produtores e às empresas norte-americanas.
O processo analisou temas relacionados ao comércio digital, aos serviços de pagamentos eletrônicos, à proteção da propriedade intelectual, ao acesso do etanol americano ao mercado brasileiro, às políticas anticorrupção e ao combate ao desmatamento ilegal.
Antes da aplicação da tarifa, o USTR realizou audiências públicas, recebeu mais de 360 manifestações e promoveu consultas com representantes do governo brasileiro. As negociações, entretanto, não resultaram em um acordo capaz de impedir a entrada em vigor da medida.
Brasil prepara reação
O governo brasileiro rejeitou as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos e classificou a medida como unilateral e sem respaldo nas regras multilaterais do comércio.
A Presidência informou que iniciou os procedimentos para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica. O país também pretende retomar a discussão no sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.
O governo brasileiro argumenta que os Estados Unidos registram superávit nas relações comerciais com o Brasil. Segundo dados apresentados pela Presidência, o saldo favorável aos norte-americanos acumulado nos últimos 15 anos teria chegado a US$ 424,5 bilhões, considerando bens e serviços.
Nova investigação pode elevar a cobrança
Além da tarifa de 25%, o Brasil é alvo de outra investigação comercial dos Estados Unidos relacionada a mercadorias supostamente produzidas com trabalho forçado.
Esse processo pode resultar em uma nova cobrança de 12,5%. Caso as tarifas sejam cumulativas, determinados produtos brasileiros poderão enfrentar uma tributação adicional de até 37,5%. A forma de aplicação, porém, ainda não foi oficialmente definida.
A sobretaxa amplia a pressão sobre exportadores e aumenta a incerteza nas relações comerciais entre os dois países. Sem um acordo diplomático, empresas brasileiras deverão buscar novos mercados, renegociar contratos e avaliar alternativas para reduzir os impactos sobre a produção e os empregos.
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