Um estudo divulgado nesta quarta-feira (19/11), durante a segunda semana da COP30, em Belém (PA), revelou que a falta de ação imediata para conter os efeitos da crise climática na Amazônia pode gerar perdas econômicas entre 14% e 33% do PIB dos países amazônicos até 2070. Os dados compõem o relatório “Medindo os custos de inação e as capacidades estatais na Bacia Amazônica”, produzido em parceria entre o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
A abordagem combinou revisão sistemática de estudos publicados entre 2000 e 2024 com ferramentas de inteligência artificial, analisando os impactos econômicos e ambientais sobre os nove países que compõem a região: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Venezuela. A conclusão reforça a necessidade de cooperação regional e fortalecimento da governança ambiental no enfrentamento da emergência climática.
Perdas econômicas podem chegar a US$ 915 bilhões anuais
Com base nas evidências científicas analisadas, o estudo estima prejuízos anuais entre US$ 525 bilhões e US$ 915 bilhões caso não haja intervenção.
Entre os principais impactos diretos estão:
- Redução de até 22% no volume de rios
- Aumento de temperatura entre 2°C e 3,3°C em áreas desmatadas
- Diminuição de 7,9% nas chuvas no oeste amazônico
- Queda de 10% na evapotranspiração
- Risco de incêndios duplicado na Amazônia oriental
As perdas foram classificadas em áreas como:
- Biodiversidade e serviços ecossistêmicos: US$ 50 a 100 bilhões/ano
- Armazenamento de carbono: US$ 30 a 50 bilhões/ano
- Agricultura: US$ 20 a 30 bilhões/ano
- Regulação hídrica: US$ 20 a 30 bilhões/ano
- Redução de produtividade econômica: US$ 15 a 25 bilhões/ano
- Cenários catastróficos climáticos: US$ 100 a 200 bilhões/ano
“Qual é o custo de perder a Amazônia?”, questiona Pnud
Lyes Ferroukhi, diretor do Pnud, reforçou que traduzir os impactos ambientais em números ajuda a mostrar a gravidade da situação para governos e formuladores de políticas públicas.
“A Amazônia é o coração da hidrologia sul-americana. Permitir seu colapso significaria assumir danos irreversíveis, afetando segurança hídrica, alimentar e climática não apenas da região, mas de todo o planeta”, afirmou.
Ele destacou ainda que, com níveis elevados de desmatamento e aquecimento global, a floresta pode deixar de ser sumidouro de carbono e se transformar em fonte emissora, caso a perda de cobertura vegetal ultrapasse 20% a 25%.
Recomendações e áreas prioritárias de investimento
O estudo indica que os países amazônicos precisam fortalecer suas capacidades institucionais, fiscais e operacionais, com;
- Maior orçamento destinado à agenda climática
- Sistemas de alerta precoce para secas, enchentes e incêndios
- Modernização da estrutura de governança ambiental
- Planos nacionais de adaptação
- Participação ativa de comunidades locais e povos tradicionais
Entre as ações consideradas imediatas, destacam-se:
- Desmatamento zero até 2030
- Restauração em larga escala de áreas degradadas
- Combate ao garimpo e desmatamento ilegal
- Fortalecimento do monitoramento territorial
Amazônia e justiça social caminham juntas
Para Vanessa Graziottin, diretora-executiva da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), conservar a Amazônia só será possível se houver melhoria real na vida das pessoas que vivem na região.
“Não basta dizer que a floresta em pé vale mais. É preciso fazer com que esse valor seja percebido concretamente pelas populações urbanas e rurais”, afirmou.
Próximos passos
Após o diagnóstico, o MGI e o Pnud iniciarão validações com governos nacionais para adequar os riscos identificados à realidade de cada país. Em seguida, o Brasil servirá como caso piloto na construção de sistemas integrados, novas ferramentas de gestão, protocolos de emergência e mecanismos de financiamento climático.
O objetivo é transformar o conhecimento científico em políticas públicas efetivas e sustentáveis, capazes de evitar colapsos ambientais e econômicos irreversíveis na maior floresta tropical do planeta.
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