A escola de samba Paraíso do Tuiuti será a primeira agremiação do Carnaval do Rio de Janeiro a revelar o tema de seu desfile para 2027. O enredo escolhido é “Ciata: a mãe preta do samba”, uma homenagem à histórica personagem conhecida como Tia Ciata.
Figura fundamental na história do samba, do candomblé e da cultura afro-brasileira no Rio de Janeiro, Tia Ciata teve participação direta na formação do carnaval carioca e na consolidação do gênero musical que se tornaria símbolo nacional.
Quem foi Tia Ciata
Tia Ciata, cujo nome de batismo era Hilária Batista de Almeida, nasceu em 13 de janeiro de 1854 em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo da Bahia. Ainda jovem, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se tornaria uma das grandes referências da cultura negra na cidade.
Segundo o historiador e enredista Cláudio Russo, Ciata foi uma personagem central na articulação cultural da chamada Pequena África, região do centro do Rio marcada pela presença da cultura afro-brasileira.
“Ela é a história do samba, é a religião, a luta por ser uma mulher negra que nem carioca era”, afirmou Russo.
Além de acolher pessoas que chegavam da Bahia, Ciata também ajudava a manter vivas tradições religiosas e culturais em um período de repressão ao samba e às religiões de matriz africana.
Religião e atuação social
Ainda adolescente, Hilária Batista participou da Irmandade da Boa Morte, tradicional confraria formada por mulheres negras criada em Salvador no século XIX.
A organização atuava como rede de solidariedade para ajudar na compra da liberdade de pessoas escravizadas. A devoção católica à Nossa Senhora da Boa Morte era marcada por forte sincretismo religioso com o candomblé.
Tia Ciata também teve papel importante na preservação da religião afro-brasileira no Rio. Filha de Oxum no Candomblé, ela foi iniciada na casa de Bambochê, da nação Ketu.
Enredo destacará o matriarcado negro
O enredo será desenvolvido pelo carnavalesco Renato Lage, que estreia na escola, e escrito pelos pesquisadores Luiz Antônio Simas e Cláudio Russo.
Para Russo, a escolha reforça uma linha de enredos da escola que valoriza personagens históricos ligados à resistência e à cultura negra.
Nos últimos anos, a Tuiuti já levou à avenida temas como a história do marinheiro João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata, e de Xica Manicongo, considerada a primeira travesti documentada do Brasil.
Segundo o presidente da escola, Renato Thor, o objetivo é dar visibilidade a personagens históricos muitas vezes esquecidos.
História de Tia Ciata também retrata o Rio em transformação
Além da trajetória pessoal da matriarca do samba, o desfile também deve abordar o contexto social do Rio de Janeiro no início do século XX, período marcado por grandes reformas urbanas que expulsaram populações negras e pobres do centro da cidade.
Segundo os pesquisadores do enredo, o desfile deve mostrar também a perseguição policial ao samba e às religiões de matriz africana, que marcaram aquele período histórico.
Samba-enredo será composto por trio de autores
Assim como tem feito desde 2018, a escola apresentará na avenida um samba-enredo encomendado, sem disputa entre compositores.
A música será assinada por Cláudio Russo, Luiz Antônio Simas e Gustavo Clarão.
A família de Tia Ciata também participará do desenvolvimento do enredo. A bisneta da homenageada, Gracy Mary Moreira, que preside a Casa Tia Ciata, ponto de cultura localizado no centro do Rio, deverá colaborar com a construção da narrativa do desfile.
Lançamento oficial do enredo
A apresentação oficial do enredo e da equipe do Carnaval 2027 está prevista para acontecer após o aniversário da escola, comemorado em 5 de abril.
A festa deverá ocorrer na Cidade do Samba, na região portuária da capital fluminense.
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