Há duas décadas, a Orquestra Criança Cidadã vem mudando histórias de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social em Pernambuco. Criado em 2006, o projeto utiliza a música como ferramenta de inclusão, educação e cidadania, formando artistas que hoje atuam em importantes orquestras do Brasil e do exterior.
Uma dessas trajetórias é a do violista Isaías Tavares, de 33 anos. Morador do bairro do Coque, no Recife, ele enfrentou dificuldades financeiras desde a infância. Filho de Ivone do Santos, empregada doméstica e mãe solo, viu a família perder a casa durante uma tempestade em 2009.
Na época, a Orquestra Criança Cidadã mobilizou doações para construir uma nova residência para a família e garantiu moradia temporária enquanto a obra era realizada.
Além da formação musical, Isaías encontrou no projeto alimentação, acolhimento e oportunidades que mudaram sua vida. O músico recorda que, antes de possuir uma viola, improvisava o instrumento com uma caixa de papelão e utilizava um galho de goiabeira para simular o arco durante os estudos.
Anos depois, conquistou uma vaga em um conservatório na cidade de Salzburgo, na Áustria, onde aperfeiçoou sua formação e integrou a Orquestra Sinfônica de Wels. Atualmente, ocupa o cargo de violista principal da Orquestra Sinfônica de Goiânia.
Para ele, a perseverança e o incentivo da mãe foram fundamentais para superar os obstáculos e construir uma carreira na música.
Outro exemplo é o contrabaixista Antonino Tertuliano, que iniciou sua trajetória na Orquestra Criança Cidadã ainda na adolescência.
Hoje, ele integra a Orquestra Filarmônica de Duisburg, na Alemanha, tornando-se o único músico latino-americano do grupo. Sempre que retorna ao Recife, participa de encontros com os alunos para compartilhar experiências e incentivar as novas gerações.
Antonino também desenvolveu um projeto aprovado pela Lei Rouanet para levar apresentações de música clássica a escolas da região Nordeste, aproximando ainda mais jovens do universo da música erudita.
A violoncelista Herlane da Silva também é fruto da primeira turma da iniciativa. Atualmente, realiza doutorado em Houston, nos Estados Unidos, pesquisando justamente o impacto dos projetos sociais latino-americanos na formação de músicos.
Idealizador da Orquestra Criança Cidadã, o juiz João Targino destaca que o principal objetivo nunca foi apenas formar músicos profissionais, mas contribuir para o desenvolvimento humano e social dos participantes.
Segundo ele, ao longo dos últimos 20 anos foi possível acompanhar a transformação de centenas de crianças que encontraram na música uma alternativa para construir novos projetos de vida.
Além do núcleo instalado no bairro do Coque, o projeto também mantém atividades em Igarassu, na Região Metropolitana do Recife, onde atende filhos de trabalhadores rurais.
Foi nesse núcleo que o contrabaixista José Felipe da Silva descobriu a música. Antes, dividia a rotina entre os estudos e o trabalho com a família nas plantações. Hoje, cursa Música na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e sonha em seguir carreira como professor e músico.
Na mesma turma está a violoncelista Mirallayne Gomes, de 19 anos, que também iniciou sua formação na Orquestra Criança Cidadã. Ela afirma que a presença de jovens músicos da comunidade inspira outras crianças a acreditarem que também podem alcançar novos horizontes por meio da educação e da cultura.
Ao completar 20 anos, o projeto reafirma seu papel como referência nacional na promoção da inclusão social, mostrando que a música pode abrir caminhos, transformar realidades e criar oportunidades para milhares de jovens brasileiros.
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