A antiga efervescência da Ladeira da Montanha, um dos principais redutos da vida noturna de Salvador entre as décadas de 1950 e 1970, inspirou a escritora Bethânia Pires Amaro a criar o romance Ressalga, publicado pela Editora Record. A obra resgata a trajetória de mulheres que atuavam como profissionais do sexo na região e que, apesar de terem desempenhado papel importante na dinâmica social e cultural da cidade, acabaram excluídas dos registros históricos.
Natural de Salvador, a autora conta que a degradação atual da Ladeira da Montanha despertou sua curiosidade sobre o passado do local, que já foi frequentado por artistas, intelectuais, políticos e boêmios. Ao iniciar a pesquisa, percebeu que as protagonistas daquela história praticamente desapareceram da memória oficial.
Segundo Bethânia, a ausência de registros sobre essas mulheres revelou um processo de invisibilização que motivou a construção do romance. A proposta da obra foi justamente devolver voz às personagens inspiradas em mulheres reais que viveram naquele período.
Durante o processo de pesquisa, a escritora encontrou referências ao projeto inacabado Mulher Dama, idealizado por Jorge Amado. O escritor pretendia retratar o cotidiano das mulheres da Ladeira da Montanha em parceria com o fotógrafo Flávio Damm, mas o livro nunca chegou a ser publicado em razão da repressão imposta após o Ato Institucional nº 5 (AI-5), durante a ditadura militar.
As fotografias produzidas para o projeto permaneceram guardadas por mais de cinco décadas e só foram exibidas ao público em uma exposição realizada em Salvador, em 2018. Para Bethânia, esse material reforçou a percepção de que havia uma importante história ainda por ser contada.
A escritora explica que grande parte das informações encontradas sobre a época estava presente apenas em biografias e relatos de homens que frequentavam a região. A partir desses registros, foi possível reconstruir parte da trajetória das mulheres que marcaram o cotidiano da Ladeira da Montanha, embora elas nunca tenham ocupado espaço de destaque na historiografia tradicional.
No romance, a narrativa acompanha três gerações de mulheres baianas, com destaque para a personagem Graça, inspirada em histórias de prostitutas que precisaram criar estratégias para sobreviver à violência e ao preconceito da época.
Entre as figuras que serviram de referência estão Maria Pires, conhecida por oferecer descontos a estudantes, e Maria da Vovó, responsável por administrar um dos maiores cabarés da capital baiana e por enfrentar constantes ações da polícia contra as trabalhadoras do sexo.
Além das histórias pessoais, Ressalga incorpora acontecimentos marcantes da história brasileira, como o suicídio de Getúlio Vargas, o governo de Juscelino Kubitschek e personagens reais, entre eles o médium Zé Arigó e o delegado Almir Araújo. A intenção, segundo a autora, é transportar o leitor para o ambiente político, social e cultural do Brasil das décadas de 1950, 1960 e 1970.
Bethânia também destacou a importância de lançar e apresentar o livro durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), realizada no Centro Histórico de Salvador, cenário que serve de pano de fundo para grande parte da narrativa. A escritora participa de encontros com leitores no sábado (7), nas Casas Motiva e Odisseu.
Premiada anteriormente pelos livros de contos, Bethânia Pires Amaro conquistou reconhecimento nacional com Ninho, vencedor dos prêmios Jabuti, APCA e Sesc de Literatura. Agora, com Ressalga, amplia o debate sobre memória, invisibilidade feminina e patrimônio histórico por meio da ficção.
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