Uma exposição em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, apresenta ao público a riqueza dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas por meio de obras coletivas produzidas no contexto do movimento Escolas Vivas. A mostra, com entrada gratuita, pode ser visitada até o dia 9 de agosto e reúne experiências, práticas pedagógicas e expressões artísticas de diferentes povos originários do Brasil.
A iniciativa é resultado de uma parceria entre o Instituto Tomie Ohtake e a Associação Selvagem, com participação ativa dos coordenadores das Escolas Vivas. O projeto evidencia formas de transmissão de saberes ligadas aos povos Guarani Mbya, Baniwa, Huni Kuin, Maxakali e Tukano-Desana-Tuyuka, valorizando conhecimentos construídos a partir da convivência com o território, da memória coletiva, da espiritualidade e das relações comunitárias.
Curadora da exposição, a filósofa e educadora indígena Cristine Takuá destaca que a proposta das Escolas Vivas busca ampliar a compreensão sobre o processo de ensino e aprendizagem, valorizando saberes ancestrais muitas vezes invisibilizados ao longo da história.
Segundo ela, a colonização impactou profundamente os povos indígenas, afetando corpos, territórios e formas de transmissão de conhecimento. Nesse contexto, o movimento reafirma a importância das artes, da espiritualidade, da oralidade e dos ensinamentos transmitidos por gerações de anciãos.
Para a curadora, os territórios indígenas são, por si só, espaços permanentes de aprendizagem, onde o conhecimento é compartilhado por meio das experiências cotidianas e da relação direta com a natureza.
Obras revelam diversidade cultural dos povos indígenas
A exposição apresenta trabalhos desenvolvidos em oficinas realizadas nos territórios das Escolas Vivas e também durante a residência artística Casa Escola Viva, realizada em 2025 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O encontro reuniu artistas indígenas em um processo coletivo de criação e intercâmbio de saberes.
Entre os destaques está a instalação O Umbigo do Mundo, criada por mulheres do povo Baniwa a partir de trançados confeccionados com fibras de tucum. Já os Huni Kuin apresentam o chamado pano professor, composto por kenes, grafismos tradicionais que desempenham papel fundamental na transmissão de conhecimentos e na compreensão de sua cosmologia.
Os Maxakali participam com uma instalação estruturada em torno dos mīmãnãns, mastros que, segundo suas tradições, permitem a presença dos espíritos durante rituais sagrados. Os Guarani Mbya apresentam a instalação Pytü, o Escuro, que simboliza o espaço primordial de onde surge a vida e a criação.
Outro núcleo da mostra reúne uma farmácia amazônica, composta por plantas medicinais, elixires e bálsamos apresentados pelos povos Tukano, Desana e Tuyuka, evidenciando a profundidade dos conhecimentos tradicionais relacionados à saúde e ao cuidado.
Homenagem aos guardiões da memória
Um espaço especial da exposição é dedicado aos mais velhos, reconhecidos como guardiões da memória e da sabedoria ancestral. O núcleo reúne obras de importantes lideranças e artistas indígenas, entre eles Ailton Krenak, Ehuana Yanomami, Tõrãmu Kẽhíri e Moisés Piyãko.
De acordo com a curadoria, são esses anciãos que mantêm viva a conexão entre passado, presente e futuro por meio de narrativas, cantos, rituais e práticas culturais transmitidas às novas gerações.
Convite à reflexão sobre educação e meio ambiente
A exposição também provoca reflexões sobre os modelos educacionais adotados no Brasil. Para Cristine Takuá, a educação indígena vai além da alfabetização convencional e envolve valores ligados ao respeito, ao bem-viver, à convivência harmoniosa e ao reconhecimento de todas as formas de vida.
A curadora observa que muitos conteúdos escolares ainda privilegiam referências distantes da realidade brasileira, enquanto espécies e elementos presentes nos territórios locais permanecem pouco conhecidos pelos estudantes.
Mais do que uma mostra artística, o projeto propõe um diálogo sobre a necessidade de fortalecer vínculos com a natureza e compreender que os seres humanos fazem parte de uma ampla rede de relações ecológicas e culturais.
Ao reunir diferentes expressões dos povos originários, a exposição reforça a importância da preservação dos conhecimentos ancestrais e convida a sociedade a repensar a educação, a diversidade cultural e o papel de cada indivíduo na proteção do meio ambiente.
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