Muito antes da construção da atual Catedral Metropolitana de Vitória, conhecida por sua arquitetura eclética, elementos neogóticos e vitrais, existiu no mesmo local, na Cidade Alta, a antiga Matriz de Nossa Senhora da Vitória. Construída entre 1550 e 1552, a igreja foi, por cerca de quatro séculos, o principal centro político, religioso e social da então Vila de Vitória.
A matriz acompanhou profundas transformações históricas, desde o período colonial até a transição para o Império e a República, testemunhando mudanças nos costumes, na organização social e na vida cotidiana dos capixabas. Em 1918, o templo foi demolido para dar lugar à construção da atual Catedral Metropolitana, inaugurada anos depois no mesmo terreno.
A trajetória da antiga igreja pode ser reconstituída por meio de fotografias, documentos e registros preservados no Arquivo Público Municipal de Vitória, além de obras bibliográficas produzidas a partir de pesquisas realizadas na instituição.
Religiosidade e ocupação do território
A Igreja de Nossa Senhora da Vitória foi a primeira e mais importante da cidade durante quase 400 anos. De arquitetura simples, integrava um conjunto religioso fundamental no processo de ocupação do território capixaba, ao lado do Colégio dos Jesuítas — atual Palácio Anchieta — e da Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia, demolida posteriormente para a construção do Palácio da Cultura Sônia Cabral.
Erguida em um contexto de forte ligação entre a Coroa Portuguesa e a Igreja Católica, a construção contou com recursos do Estado português, que financiava templos, cultos e salários do clero em troca da arrecadação dos dízimos. O período coincide com a fundação da Vila de Vitória, em 1551, e com o registro dos primeiros padres seculares atuantes no Espírito Santo.
Além das funções religiosas, bispos e vigários exerciam papel de orientação moral e social, influenciando diretamente o comportamento da população. As cerimônias religiosas eram frequentadas pelas autoridades, proprietários de terras e pessoas livres, enquanto batismos e sepultamentos eram restritos às elites locais.
Arquitetura e posição de destaque
Construída em estilo colonial, com influências barrocas, a matriz ocupava uma área elevada, em posição de destaque no traçado urbano. As paredes eram feitas de pedra, barro e cal. O edifício tinha formato retangular simples, com uma torre acoplada à fachada, onde ficava o sino.
As dimensões da igreja eram de cerca de 120 palmos de comprimento por 60 de largura, com altura aproximada de 20 palmos — o que corresponde a uma área construída de cerca de 350 metros quadrados e altura próxima de 4,4 metros. O interior possuía ornamentação discreta, com destaque para o altar-mor dedicado a Nossa Senhora da Vitória, além de outros altares laterais. Em frente à igreja ficava o Largo da Matriz, onde também havia um pequeno cemitério.
Reformas e decadência
Já em 1726, a matriz apresentava sinais de deterioração. O vice-rei Vasco Fernandes César de Meneses orçou sua reconstrução e ampliação, obra autorizada pelo rei Dom João V em 1731. Apesar disso, as intervenções só começaram em 1749 e se estenderam por décadas.
O templo foi palco de importantes acontecimentos históricos, como os juramentos à Constituição Portuguesa, em 1821, e à Constituição do Império, em 1824. No entanto, ao longo do século XIX, o edifício entrou em progressivo estado de decadência.
Com a Proclamação da República, em 1889, a separação entre Igreja e Estado agravou a situação financeira da matriz, que deixou de receber recursos públicos para manutenção.
Da antiga matriz à Catedral Metropolitana
Em 1895, o então padre Eurípides Calmon descreveu a igreja como estando em “mísero estado de conservação”. No mesmo ano, foi criada a Diocese do Espírito Santo, e o templo passou a ser oficialmente denominado Catedral.
Apesar de reformas realizadas no início do século XX, a Diocese decidiu, em 1917, pela demolição da antiga matriz e pela construção de um novo templo, maior e mais imponente. A demolição ocorreu em 6 de julho de 1918, durante o bispado de Dom Benedito Paulo Alves de Souza. A construção da atual Catedral Metropolitana de Vitória teve início em 1920, no mesmo local.
A antiga Matriz de Nossa Senhora da Vitória permanece como um marco fundamental da memória urbana e religiosa da capital capixaba, simbolizando as transformações históricas que moldaram a cidade ao longo dos séculos.
Compartilhe esta notícia do Giro Capixaba, o melhor site de notícias do Espírito Santo.
Siga o GIRO CAPIXABA no Instagram





