Uma espécie de peixe pouco valorizada comercialmente se transformou em fonte de renda e oportunidade para mulheres de uma comunidade de Magé, na Baixada Fluminense. A ubarana, que tradicionalmente era utilizada principalmente para consumo das próprias famílias, passou a ser ingrediente de diferentes pratos preparados pela Cozinha das Caranguejeiras.
A iniciativa é desenvolvida por mulheres da Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangue de Magé (ACAMM), na região do Rio Suruí, no entorno da Baía de Guanabara. O trabalho combina conhecimentos tradicionais, geração de renda, fortalecimento comunitário e ações de preservação ambiental.
Na cozinha, a ubarana é transformada em estrogonofe, escondidinho, almôndegas, bolinhos, coxinhas, croquetes, quibes e risoles, entre outras receitas.
A ubarana é encontrada em ambientes costeiros e estuarinos, inclusive em áreas de manguezal. Segundo especialistas que acompanham o trabalho da associação, o peixe possui muitas espinhas finas e espalhadas, característica que dificulta o preparo em filés e contribui para seu baixo valor comercial.
As mulheres da comunidade desenvolveram uma maneira própria de processar a carne, permitindo seu aproveitamento em diferentes receitas sem que as espinhas sejam percebidas durante o consumo.
O conhecimento foi construído a partir de práticas tradicionais e experiências compartilhadas entre as integrantes da associação. Com o tempo, receitas testadas individualmente passaram a fazer parte do repertório da Cozinha das Caranguejeiras.
Antes de ganhar espaço nas atividades comerciais da associação, a ubarana já fazia parte da alimentação das famílias de pescadores. O peixe era levado para casa e beneficiado para o consumo próprio.
A mudança começou quando a comunidade passou a perceber que o pescado também poderia ser utilizado para gerar renda. Receitas como estrogonofe e coxinha foram testadas pelas próprias mulheres e, posteriormente, incorporadas ao trabalho coletivo.
A Cozinha das Caranguejeiras realiza almoços especiais e recebe moradores, visitantes, pesquisadores, estudantes, grupos de turistas e representantes de empresas. Também são feitas encomendas.
Atualmente, 15 mulheres participam diretamente das atividades da cozinha e da associação, em sistema de rodízio. Elas recebem uma parcela da renda obtida com a venda dos pratos.
Além do aspecto econômico, o trabalho também tem impacto na convivência entre as mulheres da comunidade.
A cozinha se tornou um espaço de encontro, troca de experiências e apoio mútuo. Para as participantes, o convívio durante a preparação dos alimentos ajuda a fortalecer vínculos e criar uma rede de apoio.
A iniciativa também beneficia outras famílias. Ao todo, 24 famílias são atendidas pelas atividades desenvolvidas pela associação.
A estrutura da ACAMM ainda é utilizada por pescadores associados para eventos particulares, como aniversários e casamentos, com valores reduzidos.
A geração de renda está ligada às ações de conservação dos ambientes onde vivem as espécies utilizadas pela comunidade. A associação participa de atividades de limpeza e recuperação do manguezal, reconhecendo a importância da qualidade do estuário para a manutenção da pesca.
A preservação do Rio Suruí e da Baía de Guanabara também contribui para a continuidade das atividades dos pescadores e pescadoras artesanais.
Desde janeiro, a Operação LimpaOca, desenvolvida pela ONG Guardiões do Mar, já retirou 12.622 quilos de resíduos do Rio Suruí e de suas margens, com a participação de pescadores artesanais e catadores de caranguejos.
A atuação da associação também se estende ao turismo de base comunitária. A região de Magé reúne áreas naturais e construções históricas que podem ser exploradas em roteiros voltados à educação ambiental e à valorização do território.
Entre as atividades estão passeios pelo Rio Suruí, observação de fauna e flora e avistamento de botos na Baía de Guanabara.
Para a associação, a Cozinha das Caranguejeiras não tem apenas a função de comercializar alimentos. A proposta é receber visitantes interessados em conhecer a cultura local, a pesca artesanal e as iniciativas de preservação ambiental. A ideia é unir alimentação, conhecimento e educação ambiental em uma mesma experiência.
A Cozinha das Caranguejeiras e a ACAMM recebem apoio do Projeto Andadas Ecológicas, iniciativa da ONG Guardiões do Mar realizada em parceria com a Petrobras, como parte do atendimento a uma condicionante da Licença de Instalação do Sistema Dutoviário do Complexo de Energias Boaventura. O projeto desenvolve ações de educação ambiental, Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), moeda ambiental e limpeza de rios e manguezais.
A experiência da comunidade de Magé mostra como conhecimentos tradicionais podem ser utilizados para criar novas oportunidades econômicas, fortalecer a participação das mulheres e, ao mesmo tempo, contribuir para a conservação dos ecossistemas que sustentam a pesca artesanal.
Compartilhe este conteúdo do Giro Capixaba, o melhor site de notícias do Estado do Espírito Santo.
Siga o GIRO CAPIXABA no Instagram





