A trajetória de Priscila Ribeiro, que alcançou 940 pontos na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025, revela uma faceta pouco conhecida da Lei Rouanet: o apoio a iniciativas educacionais de base comunitária que integram cultura, acolhimento e formação cidadã. Moradora do Distrito Federal, a estudante de 18 anos cursou o pré-vestibular comunitário do Programa Jovem de Expressão, iniciativa gratuita voltada à juventude periférica.
Ao ver a nota aparecer na tela, Priscila precisou confirmar mais de uma vez. Até pouco tempo antes, ela estudava sozinha, recorrendo a conteúdos disponíveis na internet, sem acompanhamento pedagógico. “Eu estava muito perdida. Tentava resolver questões e fazer anotações, mas não conseguia entender onde estava errando. Estudar sozinha foi muito difícil para mim”, relata.
Criado em 2007, o Programa Jovem de Expressão é realizado pelo Instituto Referência da Juventude e atua há 18 anos no Distrito Federal, promovendo educação, cultura, empreendedorismo e cuidado com a saúde mental de jovens entre 18 e 29 anos. Sediado na Praça do Cidadão, em Ceilândia, o projeto já atendeu milhares de jovens gratuitamente e consolidou-se com o apoio de recursos públicos.
Foi nesse ambiente que Priscila encontrou o suporte necessário para avançar nos estudos. Segundo ela, o acolhimento fez a diferença. “Eu fui acolhida de uma forma que nunca tinha sido antes na minha vida acadêmica. Houve atenção, carinho e até apoio psicológico. Isso foi fundamental para que eu não desistisse”, afirma.
O pré-vestibular comunitário do Jovem de Expressão funciona desde 2016 e surgiu para atender jovens do território que desejavam retomar os estudos ou se preparar para o ensino superior. Para a coordenadora do cursinho, Vitória Deolindo, o acolhimento sempre foi o eixo central da proposta. “Criamos um ambiente sem julgamentos, onde os estudantes se sentem pertencentes e confiantes para aprender”, explica.
Ao longo dos anos, o programa captou integralmente os recursos autorizados pelo Ministério da Cultura por meio da Lei Rouanet. Foram R$ 1,95 milhão aprovados no projeto mais recente. No total, a iniciativa já submeteu dez projetos ao mecanismo de incentivo, captando mais de R$ 6,9 milhões em renúncia fiscal.
Para Priscila, o método de ensino foi decisivo para sua evolução. “A professora lia minha redação em voz alta e mostrava exatamente onde eu precisava melhorar. Durante anos eu não saía do mesmo lugar. Com esse acompanhamento, fui avançando até chegar aos 940 pontos”, conta.
Segundo a coordenação, a metodologia também fortalece a autoestima, o pensamento crítico e o repertório cultural dos estudantes, por meio de rodas de conversa e atividades culturais integradas. “Ao trazer as vivências dos jovens para o centro do processo educativo, eles se reconhecem como protagonistas, o que impacta diretamente a escrita e a argumentação”, destaca Vitória.
Agora, Priscila pretende concorrer a uma vaga na Universidade de Brasília (UnB), na área de Tecnologia da Informação, com foco em Ciência da Computação. Para ela, a conquista vai além do resultado individual. “Projetos como o Jovem de Expressão só existem porque há políticas públicas e investimento. Se eu consegui, outros jovens também podem. A universidade é o nosso lugar”, afirma.
Ao comentar o papel da Lei Rouanet, o secretário de Fomento e Incentivo à Cultura, Henilton Menezes, reforçou que o mecanismo é um instrumento estratégico de transformação social. Segundo ele, a lei conecta o investimento privado ao potencial criativo e educativo de projetos que geram impactos duradouros na sociedade.
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