Visitar um familiar que está preso pode representar um peso financeiro significativo para muitas famílias brasileiras. Uma pesquisa da Pastoral Carcerária Nacional, em parceria com a Assessoria Popular Maria Felipa, estima que os gastos com itens básicos de alimentação, higiene e vestuário, além de transporte e outros custos relacionados às visitas, chegam a R$ 4,33 bilhões por ano.
Segundo o estudo A pena sem sentença: famílias, gênero e a expansão silenciosa do poder punitivo, uma família que mantém visitas semanais pode comprometer, em média, 69,4% de um salário mínimo com essas despesas. O levantamento foi feito a partir de 2.706 entrevistas, com nível de confiança de 95% e margem de erro de 3%.
A pesquisa aponta ainda que esse custo é assumido principalmente por mulheres. Elas representam 94,1% das pessoas que fazem visitas sociais nos presídios. Entre os visitantes, 65,5% são pretos ou pardos, e as esposas ou companheiras correspondem a 30,3%. Para os pesquisadores, o cenário revela uma forte concentração do trabalho de cuidado nas mulheres e na população negra.
Mais da metade dos entrevistados, 56,9%, afirmou gastar mais de R$ 200 em cada visita. Os gastos não se limitam aos produtos levados aos presos. Também entram na conta transporte, alimentação durante o deslocamento e, em algumas situações, hospedagem.
De acordo com a pesquisa, um kit de alimentos, produtos de higiene e roupas suficiente para cerca de 15 dias custa, em média, R$ 263,67. Quando a visita é semanal, esse valor médio sobe para R$ 293,52. Somando as demais despesas, o custo estimado chega a R$ 1.053,90 por mês para quem visita o familiar toda semana.
O levantamento chama atenção para o fato de que muitos desses gastos estão relacionados a necessidades que deveriam ser atendidas pelo próprio sistema prisional. Para os pesquisadores, as famílias acabam assumindo parte dos custos de manutenção das pessoas privadas de liberdade, além de enfrentarem consequências econômicas e emocionais.
Além das despesas, familiares relatam dificuldades e situações de violência institucional durante as visitas. Segundo a pesquisa, 58,9% dos entrevistados já passaram por constrangimentos ou algum tipo de violência nas unidades prisionais. Entre os problemas citados está a revista íntima, relatada por 32,5% dos participantes.
Também aparecem reclamações sobre demora para conseguir autorização de visita, exigência de documentos e dificuldades para comprovar vínculos familiares. Em alguns casos, a obtenção de certidões e outros documentos representa mais um gasto para pessoas que já enfrentam dificuldades financeiras.
Os pesquisadores afirmam que muitos familiares também sentem que são tratados como se tivessem alguma responsabilidade pelo crime cometido pelo parente preso. Essa situação, somada à preocupação constante com as condições dentro das unidades, pode afetar a saúde física e emocional de quem mantém a rotina de visitas.
Uma alternativa de apoio financeiro é o auxílio-reclusão, benefício pago pela Previdência Social aos dependentes de segurados que estão presos e atendem aos critérios previstos na legislação. Entre as exigências está a necessidade de o segurado ter contribuído para o INSS por pelo menos 24 meses antes da prisão.
Mesmo assim, o benefício chega a uma parcela pequena das famílias. Dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) indicam que apenas 2,47% das famílias recebem o auxílio-reclusão. A baixa cobertura está relacionada, entre outros fatores, à quantidade de trabalhadores que atuam na informalidade e não contribuem regularmente para a Previdência.
O estudo também destaca o tamanho do sistema prisional brasileiro. No segundo semestre de 2025, havia 727.301 pessoas nas penitenciárias, enquanto o número de vagas era de 505.267, resultando em um déficit de 222.034 vagas. No mesmo período, foram registradas mais de 4,5 milhões de visitas.
Para a Pastoral Carcerária, a distância entre presos e familiares também agrava os problemas. A entidade afirma que muitos detentos são enviados para unidades distantes de suas cidades de origem, aumentando os gastos e dificultando a manutenção dos vínculos familiares.
A Pastoral Carcerária participa dos comitês estaduais do Plano Pena Justa em nove estados: Santa Catarina, São Paulo, Piauí, Rio Grande do Sul, Paraíba, Pernambuco, Maranhão, Mato Grosso e Minas Gerais. Coordenado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em parceria com o Conselho Nacional de Justiça, o plano busca enfrentar problemas estruturais do sistema penitenciário brasileiro.
A entidade reconhece a importância da iniciativa, mas afirma que ainda existem dificuldades para colocar as ações em prática, principalmente pela falta de recursos destinados às medidas previstas.
Para os pesquisadores e organizações que acompanham o sistema prisional, reduzir a superlotação e garantir condições adequadas dentro das unidades também passa por preservar os vínculos entre presos e familiares. A avaliação é que a responsabilidade pelos custos da prisão não pode continuar sendo transferida, em grande parte, para famílias que já enfrentam dificuldades econômicas.
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