A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) incluiu três locais brasileiros na Rede de Lugares de História e Memória Relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas. O reconhecimento contempla o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, a Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador, e a Serra da Barriga, em Alagoas.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) celebrou a decisão e destacou a importância dos espaços para preservar a memória da escravidão, reconhecer a resistência histórica da população negra e promover a educação das novas gerações.
A candidatura brasileira foi apresentada pelo MRE. O Cais do Valongo, localizado na região portuária do Rio de Janeiro, foi indicado por preservar vestígios de um dos principais pontos de desembarque de africanos escravizados nas Américas. Desde 2017, o local também integra a Lista do Patrimônio Mundial da Unesco.
Em Salvador, a Sociedade Protetora dos Desvalidos representa um marco da organização e da solidariedade da população negra desde o século XIX. Fundada em 1832 por Manoel Victor Serra e outros homens negros livres, é considerada a primeira instituição civil negra do Brasil em funcionamento contínuo. Sua trajetória está ligada à luta por liberdade, direitos e apoio mútuo.
A Serra da Barriga, em União dos Palmares, Alagoas, abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares e preserva a memória de um dos mais importantes símbolos de resistência à escravidão no país. A região foi reconhecida como patrimônio cultural brasileiro em 1988.
Criada em 2024, a Rede integra o Programa Rotas dos Escravizados: Resistência, Liberdade e Patrimônio, da Unesco. A iniciativa busca conectar lugares de diferentes países, estimular a cooperação internacional e promover ações de educação, pesquisa e valorização da memória, com a participação das comunidades locais.
Segundo Marlova Jovchelovitch Noleto, diretora e representante da Unesco no Brasil, a inclusão dos três espaços reconhece seu valor histórico e contribui para transmitir essa memória às novas gerações. A iniciativa também ajuda a compreender os efeitos duradouros da escravidão, como o racismo estrutural e as desigualdades sociais.
O historiador Ivanir dos Santos avalia que o reconhecimento vai além da preservação de locais históricos. Para ele, os espaços ajudam a questionar narrativas tradicionais sobre a formação do Brasil e a evidenciar o protagonismo da população negra. O Cais do Valongo simboliza a violência do tráfico transatlântico; a Serra da Barriga representa a luta por liberdade e autonomia; e a Sociedade Protetora dos Desvalidos revela estratégias de organização e solidariedade diante do racismo.
O professor também ressaltou que a valorização desses patrimônios precisa ser acompanhada de políticas de preservação, educação antirracista e participação das comunidades negras na gestão dos locais. A medida, segundo ele, pode fortalecer as reivindicações por reparação histórica, igualdade racial e reconhecimento dos direitos da população negra.
Além dos três novos integrantes, a Rede já reúne instituições brasileiras como o Museu da Inconfidência, em Minas Gerais, e os Museus Casa da Hera e da República, no Rio de Janeiro. A ampliação reforça o papel desses espaços como locais de memória, conhecimento e diálogo sobre a escravidão e seus impactos na sociedade contemporânea.
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