Uma investigação da organização Mercy For Animals (MFA) registrou o descarte de pintinhos machos recém-nascidos em um grande incubatório da indústria de ovos na Região Sul do Brasil. Segundo a entidade, aproximadamente 35 mil animais foram mortos em apenas um dia na unidade. O nome da empresa envolvida não foi divulgado.
De acordo com a investigação, os pintinhos tinham menos de um dia de vida quando eram separados das fêmeas e encaminhados para máquinas utilizadas no processo de descarte. Os equipamentos possuem lâminas rotativas de alta velocidade. A prática está relacionada ao fato de os machos não produzirem ovos e, dentro do modelo tradicional de produção, não terem características consideradas adequadas para a criação destinada à carne.
A vice-presidente de Investigações da MFA, Luiza Schneider, afirmou que o trabalho não partiu de uma denúncia isolada contra uma empresa, mas teve como objetivo registrar uma prática que, segundo a organização, ainda ocorre de maneira ampla na indústria. A entidade chama atenção principalmente para o sofrimento provocado aos animais recém-nascidos.
O material divulgado pela organização também questiona a eficiência dos equipamentos utilizados no descarte. Segundo a MFA, as máquinas podem não provocar a morte dos animais de forma imediata, o que levantaria a possibilidade de prolongamento do sofrimento. A investigação registrou ainda o descarte de fêmeas em situações específicas, como nascimento prematuro, deformidades, sangramentos, anomalias ou quando o número de aves ultrapassava a demanda dos criadores.
Uma das alternativas defendidas para reduzir esse tipo de descarte é a sexagem in ovo. A tecnologia permite identificar o sexo do embrião ainda durante o período de incubação. Dessa forma, ovos com embriões machos podem ser retirados antes da eclosão, evitando que os animais nasçam para depois serem eliminados.
A tecnologia já vem sendo adotada em outros países. Segundo dados da organização Innovate Animal Ag, cerca de 130 milhões das aproximadamente 340 milhões de galinhas poedeiras da União Europeia eram provenientes de sistemas que utilizavam sexagem in ovo em junho deste ano. Alemanha, França, Áustria e Itália adotaram medidas contra a trituração de pintinhos, enquanto Noruega e Suíça também avançam na substituição da prática. No Brasil, a primeira máquina do tipo foi instalada em julho de 2025, no incubatório da Hy-Line do Brasil, em Nova Granada, no interior paulista.
Apesar do avanço tecnológico, o custo ainda é apontado como um dos principais obstáculos para ampliar a utilização da sexagem in ovo. Conforme levantamento da Innovate Animal Ag, o método tradicional custa aproximadamente R$ 7 por ave no Brasil, enquanto a tecnologia pode acrescentar entre R$ 5 e R$ 10 ao custo. A organização, porém, destaca que esse valor pode ser diluído durante a produção, já que uma galinha poedeira chega a produzir cerca de 350 ovos ao longo do ciclo.
Pesquisa com consumidores brasileiros também indica resistência à trituração: 73% dos entrevistados disseram se sentir desconfortáveis com a prática e 79% demonstraram interesse em comprar ovos produzidos com sexagem in ovo.
O tema também começou a ser discutido no Congresso Nacional. Atualmente, não há uma lei federal específica que proíba o descarte de pintinhos machos no país, mas projetos sobre o assunto estão em tramitação na Câmara dos Deputados. A MFA informou que pretende encaminhar uma denúncia ao Ministério Público para que as autoridades avaliem as práticas registradas durante a investigação. A organização também defende que a legislação avance para impedir métodos considerados cruéis contra os animais.
Compartilhe este conteúdo do Giro Capixaba, o melhor site de notícias do Estado do Espírito Santo.
Siga o GIRO CAPIXABA no Instagram





