O câncer do colo do útero ainda apresenta alta incidência e mortalidade no Brasil, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Especialistas defendem que, para mudar esse cenário, é fundamental ampliar a vacinação contra o HPV (papilomavírus humano), incluindo meninas e meninos, principalmente adolescentes.
O tema foi debatido na última terça-feira (5) durante audiência pública da Comissão de Assuntos Sociais do Senado (CAS), que discutiu políticas públicas voltadas aos cânceres ginecológicos. A iniciativa partiu do senador Marcelo Castro.
A condução do debate ficou a cargo da senadora Dra. Eudócia, que alertou para o crescimento dos casos no país e destacou a importância de fortalecer políticas públicas e ampliar a cobertura vacinal.
Segundo ela, as doenças oncológicas devem se tornar a principal causa de mortes no Brasil até 2030, superando as doenças cardiovasculares, o que reforça a necessidade de ações preventivas.
Rastreamento e prevenção
Representando o Ministério da Saúde, a diretora Guacyra Magalhães Pires Bezerra afirmou que o país possui condições de avançar na prevenção e no diagnóstico precoce da doença.
Ela destacou a implementação recente do rastreamento organizado com teste de DNA do HPV oncogênico, estratégia que deve ser ampliada para todo o território nacional até o fim do ano.
Cânceres ginecológicos em destaque
Entre os principais tipos de câncer que afetam mulheres no Brasil, três são ginecológicos: colo do útero, corpo uterino (endométrio) e ovário.
O diretor-geral do Instituto Nacional de Câncer (Inca), Roberto de Almeida Gil, explicou que essas doenças possuem características distintas.
Segundo ele, o câncer do colo do útero é o terceiro mais incidente no país entre mulheres, enquanto o câncer de endométrio ocupa a sexta posição e está em crescimento. Já o câncer de ovário aparece em oitavo lugar.
Vacinação como estratégia-chave
Especialistas reforçaram que o câncer do colo do útero pode ser prevenido por meio da vacinação contra o HPV. Atualmente, o Sistema Único de Saúde oferece gratuitamente a vacina quadrivalente para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos.
Essa versão protege contra quatro tipos do vírus (6, 11, 16 e 18), responsáveis por grande parte dos casos da doença. Já a vacina nonavalente, que cobre nove tipos de HPV, ainda está disponível apenas na rede privada.
Metas e desafios
A diretora da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Daniele Assad-Suzuki, apontou que o Brasil registra cerca de 17 mil novos casos por ano.
Segundo ela, as metas da Organização Mundial da Saúde (OMS) preveem vacinar 90% de meninas e meninos entre 9 e 14 anos. No entanto, o país ainda não alcança 80% de cobertura entre meninas nem 70% entre meninos.
Entre as soluções apontadas estão a retomada da vacinação nas escolas e campanhas de conscientização para reforçar que a imunização previne mortes.
Diagnóstico tardio e desigualdades
O diretor científico da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, Agnaldo Lopes da Silva Filho, destacou que a maioria dos casos no Brasil ainda é diagnosticada em estágio avançado, o que reduz as chances de cura.
Ele ressaltou também as desigualdades entre países: enquanto a taxa de sobrevida ultrapassa 70% em nações desenvolvidas, em países de baixa renda fica abaixo de 20%.
A coordenadora do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA), Marcella Salvadori, reforçou que a doença está diretamente ligada à vulnerabilidade social e às desigualdades regionais.
Ela também destacou que o câncer de ovário, embora menos frequente, apresenta alta taxa de mortalidade, principalmente por ser diagnosticado tardiamente.
Caminho para o futuro
Especialistas foram unânimes ao afirmar que a ampliação da vacinação contra o HPV é uma das estratégias mais eficazes de saúde pública para reduzir a incidência e, no futuro, eliminar o câncer do colo do útero.
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