A superação dos problemas históricos de saneamento básico no Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, depende de uma abordagem integrada que envolva esgotamento sanitário, abastecimento de água, drenagem urbana e coleta adequada de resíduos sólidos. A avaliação é do coordenador do Eixo de Direitos Urbanos e Socioambientais da organização Redes da Maré, Maurício Dutra, que também defende maior transparência e participação da comunidade na execução das obras.
Morador da Nova Holanda, uma das 16 favelas que compõem o complexo, Dutra destaca que qualquer iniciativa deve considerar o crescimento populacional e as características urbanas da região. “Projetos de saneamento precisam levar em conta os impactos das chuvas intensas, que frequentemente provocam alagamentos e a mistura de água pluvial com esgoto”, afirma.
Segundo estimativas da Redes da Maré, cerca de 200 mil pessoas vivem na região e enfrentam diariamente as consequências da precariedade da infraestrutura urbana. O território, que teve origem em ocupações e palafitas às margens da Baía de Guanabara, expandiu-se sem planejamento adequado, refletindo um histórico de desigualdade no processo de urbanização da cidade.
“A expansão dos serviços de saneamento no Rio de Janeiro nunca ocorreu de forma homogênea. As áreas de maior interesse econômico e político foram priorizadas, especialmente as regiões mais ricas”, ressalta Dutra, ao apontar que decisões políticas contribuíram para o cenário atual.
Outro dado preocupante é que menos de 1% do esgoto gerado na Maré é efetivamente tratado em estações próximas. Grande parte dos resíduos é despejada em canais e valões que deságuam diretamente na Baía de Guanabara, agravando os impactos ambientais e sanitários.
Recentemente, a concessionária Águas do Rio anunciou investimentos de aproximadamente R$ 120 milhões na região. O objetivo é modernizar o sistema de abastecimento de água, ampliar as ligações domiciliares à rede de esgoto e instalar um novo tronco coletor para encaminhar os efluentes ao tratamento adequado.
Para Dutra, a iniciativa representa um avanço, mas não resolve todos os desafios. “O tronco coletor atende uma das frentes dessa visão macro do saneamento, mas seguimos mobilizados para que também sejam solucionadas as questões dos alagamentos e da gestão dos resíduos sólidos”, enfatiza. De acordo com a organização, o Complexo da Maré é responsável por cerca de 2% do lixo produzido em todo o município do Rio de Janeiro.
O descarte inadequado de resíduos também preocupa a concessionária. O presidente da Águas do Rio, Anselmo Leal, destaca que o acúmulo de lixo pode comprometer o funcionamento da rede de esgoto e aumentar o risco de contaminação. “Não adianta implantar a rede de esgoto se, durante as chuvas, o lixo é arrastado para dentro das tubulações”, observa.
Leal concorda que a solução para o problema exige atuação conjunta entre concessionária, poder público e comunidade. Segundo ele, a regularização do saneamento tende a estimular novos investimentos e melhorias urbanas. “Quando avançamos nessa área, criamos um ambiente mais favorável ao desenvolvimento e à qualidade de vida”, afirma.
Lixão da antiga Salsa e Merengue
Avanços na coleta de resíduos devem ocorrer por meio do programa federal PAC Periferia Viva, atualmente em fase de licitação em parceria com a prefeitura do Rio. A iniciativa prevê a instalação de cinco ecopontos equipados com caixas compactadoras, permitindo o descarte de lixo 24 horas por dia.
Um dos ecopontos será implantado na comunidade de Novo Pinheiro, anteriormente conhecida como Salsa e Merengue. No local, um depósito irregular de resíduos às margens da Baía de Guanabara dará lugar a uma área urbanizada, com equipamentos de lazer e parquinho infantil.
A expectativa da população é grande. Durante visita da reportagem, o menino Pedro Dantas*, de 6 anos, questionou se o espaço realmente contará com um parquinho, enquanto realizava o descarte do lixo doméstico. A cena evidencia o contraste entre a realidade atual — marcada por mau cheiro, presença de moscas e acúmulo de resíduos — e a esperança por melhorias.
De acordo com a prefeitura do Rio de Janeiro, as obras do novo Parque Linear estão em fase de contratação, representando mais um passo na transformação urbana da região.
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