A aprovação do Acordo entre Mercosul e União Europeia, em janeiro de 2026, abriu uma nova fase de expectativas para o comércio bilateral. Embora ainda dependa de ratificação pelos países envolvidos, a previsão é de eliminação gradual e mútua de tarifas sobre mais de 90% dos produtos, com potencial benefício ao consumidor final.
Em 2025, a produção de leite no Brasil atingiu nível recorde, com crescimento estimado em 7,2% frente a 2024. Apesar de uma queda de 4,2% nas importações, o volume permaneceu elevado e a balança comercial seguiu deficitária, com cerca de 2 bilhões de litros equivalentes. O leite em pó manteve-se como o principal item importado.
Sobreoferta pressiona preços ao produtor
A combinação de produção elevada e importações resultou em sobreoferta de lácteos no mercado interno, pressionando os preços pagos ao produtor ao longo de 2025, especialmente a partir de abril. Dados do Centro de Inteligência do Leite (Cileite), da Embrapa, mostram que em dezembro de 2025 o valor médio chegou a R$ 1,99 por litro — queda de 22,6% em 12 meses. Já o preço da cesta de lácteos ao consumidor recuou 3,62%.
Cenário internacional e incertezas globais
O mercado global inicia 2026 com oferta elevada, impulsionada por aumentos expressivos na produção de países como Argentina e Uruguai, que registraram altas entre 7% e 8% em 2025. Para este ano, porém, a expectativa é de crescimento mais moderado, diante de margens apertadas e incertezas geopolíticas em regiões como Venezuela, Irã e Leste Europeu.
Segundo Samuel Oliveira, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, os preços internacionais seguem baixos no início do ano. “As altas observadas no último leilão da Global Dairy Trade devem ser encaradas como correções pontuais”, avalia.
Brasil: economia desacelera e produtor enfrenta desafios
No cenário doméstico, a projeção de crescimento do PIB é de 1,8% em 2026, abaixo dos 2,3% estimados para 2025. O ambiente eleitoral adiciona incertezas, com volatilidade cambial, expectativa de aumento dos gastos públicos e juros elevados para controle da inflação.
Para o produtor, o curto prazo segue desafiador. O preço pago ao campo caiu para cerca de US$ 0,36/kg. Ainda assim, há sinais de ajuste, com reação do mercado spot. A valorização do real frente ao dólar, no entanto, pode tornar o produto importado mais competitivo nos próximos meses.
Entressafra e renda complementar aliviam pressão
A recuperação dos preços de bezerras e da arroba do boi surge como ponto positivo, gerando renda adicional com a venda de novilhos e o descarte de vacas. A proximidade da entressafra também começa a influenciar a precificação do leite, com viés de recuperação. No curto prazo, o acordo Mercosul–União Europeia não deve provocar mudanças significativas no mercado europeu.
Para 2026, a recomendação é cautela e planejamento estratégico. “As transformações no setor são rápidas. É preciso investir em produtividade, reduzir custos ou agregar valor para ganhar competitividade tecnológica”, alerta Samuel Oliveira.
Maior tecnificação no campo
O bom desempenho de 2024 estimulou investimentos e maior tecnificação da atividade leiteira em 2025. Clima favorável, profissionalização e tecnologia impulsionaram a produção, com maior concentração em grandes fazendas. “Há uma mudança estrutural na produção de leite no Brasil, com propriedades mais eficientes respondendo melhor à rentabilidade”, afirma Glauco Carvalho, pesquisador da Embrapa Gado de Leite.
Apesar da queda de preços ao longo de 2025, a média anual ainda garantiu rentabilidade ao produtor, especialmente pelo bom desempenho do primeiro semestre. O Índice de Custo de Produção de Leite (ICPLeite/Embrapa) subiu 3,0% até dezembro, abaixo da inflação oficial de 4,3%. A estabilidade nos custos — favorecida por preços estáveis de milho e soja — ajudou a amortecer o impacto negativo, embora o último trimestre do ano tenha sido mais difícil.
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