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Especialistas criticam “Consórcio da Paz” e uso do termo “narcoterrorismo” após operação letal no Rio de Janeiro

Governadores lançam projeto de integração contra o crime, mas cientistas sociais alertam para o discurso político que legitima violência e amplia a retórica de “guerra às drogas” no país.

redação Por redação
02/11/2025 - 16:19
em Brasil
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Especialistas criticam o “Consórcio da Paz” e o uso de termos como “narcoterrorismo” e “guerra às drogas”. Eles alertam que o discurso político amplia a violência e ameaça a democracia no Brasil.

Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

Conflitos não são travados apenas com armas, mas também com palavras. Em meio às operações policiais que deixaram 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, governadores aliados de Cláudio Castro lançaram o “Consórcio da Paz”, uma iniciativa que promete integrar ações contra o crime organizado no Brasil.

O nome, porém, tem sido alvo de críticas. Para o sociólogo Ignacio Cano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o título inverte o sentido da realidade.

“Os governadores erraram no nome. Deveria se chamar Consórcio da Morte, porque é isso que eles estão propondo. Certamente não é a paz”, afirma Cano. “Cada vez que usarem esse termo, serão lembrados da quantidade de mortes que os seus governos produzem. A maioria dos governadores de direita está promovendo letalidade policial.”

Integram o grupo os governadores Cláudio Castro (Rio de Janeiro), Tarcísio de Freitas (São Paulo), Romeu Zema (Minas Gerais), Jorginho Mello (Santa Catarina), Eduardo Riedel (Mato Grosso do Sul), Ronaldo Caiado (Goiás) e Ibaneis Rocha (Distrito Federal).

O discurso do “narcoterrorismo”

A retórica adotada por parte desses governadores, que classificam as facções criminosas como “narcoterroristas”, também é criticada por especialistas.

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Operação policial após ataques às bases das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) nas comunidades do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, no início do ano. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Para Jacqueline Muniz, antropóloga e professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), o termo distorce a realidade e serve como ferramenta política.

“Falar em narcoterrorismo é uma bobagem que atrapalha a segurança pública e o próprio governo. É um discurso que encobre incompetências e oportunismos”, afirma. “Quando se usa esse termo, quer-se justificar mais poder, mais orçamento e menos transparência.”

O conceito também é rejeitado por Ignacio Cano, que o considera incorreto do ponto de vista técnico:

“Terrorismo está ligado a objetivos políticos e ao uso de violência para fins ideológicos. O narcotráfico visa lucro, não poder político. ‘Narcoterrorismo’ é uma contradição em si mesma.”

A Lei nº 13.260/2016 define terrorismo no Brasil como atos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito com o objetivo de provocar terror social. Já o tráfico de drogas é enquadrado como organização criminosa, e não como terrorismo.

Apesar disso, o Projeto de Lei 724/25, de autoria do deputado Coronel Meira (PL-PE), tenta alterar esse entendimento ao incluir o tráfico de drogas ilícitas na definição de terrorismo. O texto foi aprovado na Comissão de Segurança Pública da Câmara e ainda passará pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antes de ir ao plenário.

Pressão internacional e riscos democráticos

Governos conservadores da Argentina e do Paraguai já classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Os Estados Unidos também sugeriram que o Brasil adote essa mesma postura durante visita diplomática em maio.

Para Jonas Pacheco, pesquisador da Rede de Observatórios da Segurança, a adoção desses termos reflete alinhamento político internacional e pode fragilizar a democracia brasileira.

“É uma forma de transferir o debate do campo policial para o geopolítico. Assim, abre-se espaço para intervenções externas sob o pretexto de combate ao terrorismo”, explica.

Segundo ele, essa retórica serve como instrumento de dominação simbólica.

“Trata-se de um discurso de poder. Países que têm grupos classificados como terroristas, em geral, não estão alinhados com governos como o de Trump. É uma estratégia de controle político sobre a América Latina”, analisa.

Cano reforça que leis antiterrorismo ampliam poderes estatais e reduzem garantias legais.

“Essas legislações prolongam prisões provisórias e diminuem direitos processuais. Mas nenhuma autoriza execuções sumárias, como temos visto”, adverte.

A retórica da “guerra às drogas”

A ideia de uma “guerra” contra o crime também é contestada. Para os especialistas, a linguagem bélica naturaliza a violência e transforma comunidades pobres em campos de batalha.

“Quando o discurso é de guerra, você legitima ações que barbarizam territórios inteiros. O inimigo não é o traficante da Faria Lima, mas o morador pobre e preto das favelas”, afirma Jonas Pacheco.

Cano acrescenta que a segurança pública deve preservar vidas, não tirá-las.

“Se a sociedade autoriza a polícia a agir sem controle, todos nós estamos em risco. A impunidade não se limita à favela; ela alcança a todos.”

Para Jacqueline Muniz, o uso dessa retórica alimenta um projeto autoritário.

“Quanto maior a insegurança, mais dependentes ficamos do poder que promete proteção. É assim que o medo se transforma em ferramenta política e a repressão vira espetáculo”, conclui.

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Tags: #ClaudioCastro#ComplexoDaPenha#ComplexodoAlemao#ConsórcioDaPaz#DireitosHumanos#GuerraÀsDrogas#JacquelineMuniz#Narcoterrorismo#PCC#SegurançaPública#ViolênciaPolicial
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